12 horas em um carnavla

12 horas em carnaval

Particularmente, nunca entendi o carnaval. É uma festa feita com a finalidade de ser profana, mas nunca vai ser profana o suficiente para se assumir um bacanal. Também está longe de ser um encontro religioso, a não ser que Ivete Sangalo seja uma espécie de deusa milenar e Salvador seja seu templo da fé (e, pelo visto, há uma grande chance). Então é para quê?

Você pode alegar que é uma oportunidade única para juntar todos em prol da igualdade entre os povos. Tudo bem, pode até ser, contudo, lembre-se que duas escolas de samba devem ser rebaixadas todo ano. E nem me fale que é uma chance mágica de confraternização, uma oportunidade de darem as mãos e cantarem juntos belas músicas e hinos. Isso até faria sentido, não obstante, temos que lembrar que um dos trios elétricos mais famosos é o do Carlinhos Brown.

Tanto não entendo o carnaval que parei de ir. Não tenho nada contra quem vai. Não posso julgar uma pessoa unicamente pelo fato dela gostar de ficar no meio de um amontoado de bêbados, fedorentos, desorientados que querem se beijar. Pode parecer ridículo, no entanto, não posso falar nada, afinal de contas, eu vejo “Big Brother”. Culturalmente, não me sinto superior aos foliões (apesar de me sentir superior àqueles que veem “A Fazenda”, da Record).

Enfim, como não entendendo essa festa, preferi me afastar dela. É uma medida salutar. Já fiz isso antes, quando estava na puberdade e não conseguia entender as mulheres. É verdade que não peguei ninguém nesse período, mas pelo menos não engravidei ninguém. Aliás, se a maioria das pessoas tivesse essa consciência, de se afastar do que não entende, acredito que 50% dos ministérios e secretarias estariam vazios (e a presidência extinta).

Assim, refletindo sobre minha incapacidade carnavalesca, este ano resolvi pegar alguns expedientes extras nessa data: trabalhei em quatro plantões noturnos, o que marcaria meu desquite oficial do carnaval.

Mais ou menos.

E nem pense que fiz isso com intenção de conseguir dias de folgas. Não, foram dias de trabalhos pesados. Brigas, confusões, furtos. Mas foi interessante. Foram nesses dias que percebi que toda política de empoderamento feminino estava criando efeitos penais: 80% dos conduzidos eram mulheres.

Em um caso, tivemos que separar uma briga entre duas meninas por causa de ciúmes. Entretanto, não era ciúmes por causa de um homem, como normalmente aconteceria em uma temporada de “Malhação”. Não, elas estavam com ciúmes, pois uma queria subir no carro alegórico e a outra não deixava.

Outro caso envolvia duas meninas, que saíram “no tapa” por causa de um ponto de venda de drogas. As duas queriam vender no mesmo lugar, mostrando que a sociedade, menos patriarcal, tem aberto espaço para os avanços empreendedores criminosos femininos.

Outras três foram conduzidas por apologia. Aliás, ao menos os militares acharam que era. Elas estavam com roupas que diziam na frente: “Vc conhece Avon?”. E atrás estava escrito: “Avon tade q eu tenho de fumar”.

Enfim, em um desses plantões, quando estava passando perto das cadeiras onde ficam os conduzidos, percebi que o empoderamento feminino trouxe grandes avanços à sociedade, mas permitiu também que todos possuam direitos iguais de fazer merda.

E foi nesse mesmo momento que percebi que eu não conseguiria, jamais, me desquitar do carnaval. No meio daquele monte de meninas na delegacia, todas bêbadas, fantasiadas, cheias de purpurina, gritando umas com as outras, me senti como um verdadeiro folião em Salvador.