Auto dançografia (1)

Autodançografia

Outro dia a Raphaela, minha sobrinha, falou que contaria a história da vida dela e pegou o álbum de fotografia. Nem achei estranho ela já ser capaz de fazer uma autobiografia com 7 anos, afinal de contas, seus ídolos são autobiógrafos natos: Justin Bieber fez a sua com 17, Larissa Manoela com 16 e o Luccas Neto compôs a sua com a idade mental de 11 anos.

E não os incrimino. Eu mesmo adoraria que meus ídolos escrevessem livros sobre suas vidas. Quão incrível seria uma autobiografia do Chorão, do Charlie Brown? Ou uma do Jó Soares? Ou até uma do Marcelo D2? Poxa, esta seria incrível! Uma pena que essa belíssima obra provavelmente só teria uma página, escrita com letras garrafais:

“Me esqueci”

O que eu fiquei boquiaberto foi com o tanto de fotos que a Raphaela tinha. Muitas, muitas mesmo! Olhando aquilo tudo, seu inventário desde o nascimento, perguntei o motivo de ela gostar tanto de tirar fotos:

_ Porque eu quero ser famosa.

Também não posso incriminá-la por isso. Sempre desejei ser famoso. Achava que um dia alguém, misteriosamente, descobriria algum dom que eu possuo e me faria mudar de vida. Afinal de contas, meu sonho era ouvir a campainha tocando e gritar ao abrir a porta:

_ Jesusss! É você, Luciano Huck?

_ Loucura loucura loucura! Viemos aqui na sua casa, Lucas, pois descobrimos que você é um gênio e vai ficar famoso e rico do nada.

_ Eu sabia que um dia alguém ia reconhecer meu talento!

_ Mas antes, você vai ter que depilar estas pernas… Maestro Vini, som na caixa! Agora com vocês, Tiaziiiiiiiinha no H!

E, neste dia, eu teria realizado meus três maiores sonhos da pré-adolescência: ser famoso, conhecer a Tiazinha e ter cabelo na perna.

O problema, meu amigo(a, @, x, y, 42), é que não tenho dom oculto. Ou ele está tão oculto que ainda não descobri. E eu até tentei me tornar escritor, desenhista, lutador de jiu-jitsu e teve um dia que achei que podia ser modelo. Infelizmente, este último plano não foi para frente, pois as marcas de roupas ainda não tinham descoberto que nem todo mundo cabe no número 42.

E teve uma vez que tentei a vida de dançarino. Foi Jonin, meu vizinho de infância em Ribeirão das Neves, que me introduziu nesta jornada. Devíamos ter mais ou menos uns dez anos, quando ele começou a gritar na frente de minha casa, avisando que havia uma repórter fazendo filmagens na rua 4. Saímos correndo, para acompanhar tudo de perto. Chegando lá, achando que era a grande oportunidade de nossas vidas de ser reconhecidos e (quem sabe?) até mesmo de ser chamados para trabalhar no programa do H, resolvemos ensaiar uma coreografia. Toda vez que a reportagem gravava algo, era só ligar a câmera que corríamos atrás dela e começávamos a fazer uma dança. Ela desligava, reposicionava e, quando a câmera começava, lá aparecíamos nós dois de novo, rebolando quase até o chão. Na boa, Tiazinha teria orgulho.

Assim que acabaram as filmagens. Chamei a Etelvina, uma mulher que cozinhava lá em casa, e minha mãe, para nos ver na TV. Quando começou o jornal da hora do almoço e veio nossa reportagem, deliramos, sobretudo ao perceber que tínhamos aparecido em várias momentos! Nosso grande dia havia chegado!

Infelizmente, mamãe não ficou tão satisfeita com meu dom e me colocou de castigo, o que fez eu enterrar de vez minha carreira dançante. Ao que tudo indica, mães não gostam quando filhos aparecem dançando em reportagens que mostram policiais estourando um cativeiro de sequestradores.

Enfim, mais de vinte anos se passaram desse dia até esta pequena conversa que tive com a Raphaela. O anseio dela é semelhante ao meu de pré-adolescente: ser famoso. A diferença, infelizmente, é que o meu praticamente se foi. Aliás, acho que essa ideia já passou para quase todos moradores de Ribeirão das Neves que estão na minha idade: somos uma geração de pessoas anônimas. Todavia, sempre fica aquela esperança. Se alguém, por exemplo, chegar dizendo:

_ Você viu que o Jonin apareceu na TV?

Na hora vou perguntar:

_ Jesusss! E o Luciano Huck trouxe a Tiazinha também?