EM ESTIBORDO – parte dois

Mas a reza nem sempre tem respostas. Havia algo errado naquilo. Rezar era sonhar? Quem era Deus, que lhe ouvia, e acumulava seus pedidos em pilhas? Rezar era apenas uma forma de perceber que nunca tinha respostas.

E a noite passou e os dias também. Ele não saiu de Estibordo. Não podia sair. Tinha que ficar. Queria ficar. Queria lembrar de tudo que leu. Tentou recordar um por um. Lembrava páginas, passagens, histórias. Lutava, quando a cabeça as perdia.  Lentamente as perdia. Eram pilhas vazias em seus pensamentos. Nos dias que esteve em Estibordo, os livros não mexiam, Estibordo ainda vazio. Só as memórias      se iam.

Até que resolveu que não podia perder o pouco que ainda possuía.

De dia, começou a correr por várias salas diferentes, procurando seus livros que foram perdidos. Jamais achou um igual. Mesmo que fosse o mesmo, com mesmo autor, mesmo roteiro, era diferente. Não era o livro que havia lido quando era criança. Era outro. Igual, mas outro, porque não foi lido em Estibordo.

Percebeu assim que a procura era em vão. Um livro em nenhuma circunstância seria sua memória. Nem se fossem iguais. Tinha que reconstruir Estibordo.

Começou a arrancar páginas, cortar palavras por palavras, montar frases, trechos por trechos do que se lembrava. Alice foi tomando forma novamente, se perdendo na toca de um coelho enquanto ele amontoava seus recortes das obras em um canto da sala. O pequeno príncipe voava? Achou que não quando refez sua conversa com a raposa. Até as fábulas de Esopo começaram a ser recontadas, em outro canto, que ele prendia com um calhamaço, para que não espalhasse – seria difícil recontá-las se os recortes saíssem do lugar.

De nem todos os livros, lembrou. De nem todas as passagens, lembrou. Alguns eram só pilhas de espaços vazios. Não se importou com esses, não lhe marcaram. Eram só livros.

No entanto, se importou de não ter achado em tempo algum, em todo aquele emaranhado de páginas, outro exemplar que utilizasse a palavra Huckleberry. Procurou por dias, talvez meses, porém não havia mais nenhum. Achou um manuscrito de teoria literária. O personagem era mencionado uma vez. Não se reescreve uma obra com uma palavra uma única vez.

Era só ignorar. Toda vez que Huckleberry Finn aparecia em sua lembrança, simplesmente saltava a reconstrução. Deixava lacunas no nome e continuava a empilhar o restante das palavras cortadas. Seria o suficiente? Não foi. Um livro sem seu personagem principal não seria um livro. A história era só fatos acontecidos quando não se tinha Huckleberry Finn. E ele não se importava com fatos. Aquele amontado de frases seria tudo, menos o livro que adorou quando era criança.

No momento em que se deu conta disso, sentou e chorou até o entardecer. Daí em diante, nunca mais rezou.

Naquela noite, as pilhas mexeram.  Tão perto de Estibordo que quase viu vultos, ouviu vozes. Talvez tivesse sonhando, era o que pensava. Talvez os livros tivessem voltando. Seja o que for, sabia que estava ali, só não pode ver nem ouvir. 

Na manhã seguinte, os escritos estavam reviradas, bem perto. Quase vinte passadas além de Estibordo. Tinham mexido muito perto. Vinte passadas e as pilhas estavam reviradas. Vinte. Reviradas. Pilhas. Jamais tinham mexido tão perto. Sobre uma delas, “As Aventuras de Huckleberry Finn”.

Se sentou ao lado dele. Folheou lentamente, página por página, relembrando todas as histórias que lhe acompanharam por todos estes anos. Passou o dia lendo, relendo e pensando. Nem caminhou. Era só o livro, revivendo suas lembranças.

Ao chegar na última página, voltou à primeira e a rasgou. Não era um rasgo de ódio, era um rasgar metódico. Uma após uma, até que não restasse mais nenhuma.

Não era o livreto que ele ansiou por tanto tempo. Não era ele. Não era ele, nem que o rasgasse e o reconstruísse, como fez com Alice, o Pequeno Príncipe e Esopo. Era igual, todavia percebeu que não era o livro que ansiou. Nem era Huckleberry Finn o personagem pelo qual tanto tinha ansiado. Era Jim, o escravo fugitivo, que era o motivo de tanto querer aquele livro. Este tempo todo, queria reconstruir Jim, o que não podia ser preso. Ao rasgar cada pedaço, cada vez mais entendia que nem o livro poderia tê-lo. Nem as páginas deveriam prendê-lo.

De noite, ele percebeu que tinha que fugir da biblioteca.