EM ESTIBORDO – parte três

Setenta e duas salas. Cento e cinquenta e três corredores. Dezessete salões principais. Oito andares. Nenhuma sala era interligada diretamente, com exceção de três salas por pavimento, às vezes mais. Todos os ambientes tinham pelo menos uma comunicação com um corredor. Todos os andares possuíam um corredor grande, nem sempre central, com cerca de 120 passos. No meio deles, seguia uma sequência de cinco corredores, que se ramificavam como brônquios, afunilando deformados. A biblioteca não era quadrada. Não era retangular. Ela era do tamanho da ramificação que se espalhava.

Nunca achou uma janela, uma porta. Não existiam saídas, só entradas.

No primeiro andar, do corredor central, após a quinta ramificação à direita, virava numa sala pequena, com os livros fechando em seu rosto, depois pegava a esquerda, duas salas e estava na escada, indo ao segundo andar.  Os demais seguiam o modelo, alguns com três salas antes da escada, como era o caso do quinto e sétimo, e havia um deles que a escada estava no fim do corredor. Este era o quarto andar, onde estava estibordo.

Em regra, os corredores não mudavam. Ele percebeu que as mudanças não eram estruturais. Eram do acervo, obras, mas a estrutura estava lá.  A cada vinte dias aproximadamente, os livros mudavam. O intervalo variava em 21 dias, depois 23, 18, 32, 20, 16, 14 e, finalmente, eles voltavam a 21 dias e repetiam a sequência.

As mudanças eram rápidas.  Algumas vezes, nem se conseguia ouvir em Estibordo. Só sequências, metódicas, de arrumação de pilhas e histórias. Mudanças insignificantes, sempre constantes.

No entanto, descobriu como adiantar as mudanças da pilha. Se ele estava triste, chorava, rasgava papeis ou os chutava, os montes se moviam à noite. E as mudanças aproximavam-se de Estibordo. Era uma resposta direto de seu desespero.

Certa vez, coincidiu de estar angustiado no mesmo dia que as pilhas se moveriam. Não foi de propósito. Estava lendo Augusto dos Anjos. Gritou palavras inteligíveis, cansou de memorizar corredores, derrubou histórias. Queria apenas esquecer que tinha existido e que um dia sonhou em sair dali. Sua vida era aquilo – e já não lhe bastava. Aos outros foram lhes dado a dádiva de ver o sol numa tarde. A ele, restou-lhe sonhar com o sol enquanto se perdia nos corredores da imensa biblioteca.

No entardecer que se seguiu, em prantos, ouviu que os amontoados se mexiam bem perto de estibordo, entretanto também mexiam longe de estibordo. O arrumar, natural e lento, se misturou com o mexer dos livros próximos. Pela primeira vez percebeu que havia mais de um. Seja o que fosse, era mais de um e eles mexiam ao mesmo tempo. Os arrumadores. Quando acordou, depois dos livros quedarem em silêncio, percebeu que Augusto dos Anjos desapareceu.

Sentou, pensando, até o entardecer. Refez as contas, refez a biblioteca mentalmente, corredores, brônquios, salas e escadas. Inúmeras vezes. Antes de ir para Estibordo, ao perceber que era o entardecer, lembrou-se de um poema agora sumido:

Como a crisálida emergindo do ovo

Para que o campo flórido a concentre,

Assim, oh! Mãe, sujo de sangue, um novo

Ser, entre dores, te emergiu do ventre!

Queria voltar a rezar. Não rezou. Era tempo de decisão.

58 dias depois, acordou transtornado. Correu pelas ramificações, escadas, salas. Empurrou livros, derrubou pilhas, mexeu com vidas em papel. Quanto mais devia atrapalhar? Quanto precisaria bagunçar? Cada hora, menos pilhas, e atacava mais longe. E mais livros no chão, mais longe. E mais histórias, mais livros, mais pilhas desfeitas. E mais pilhas, mais histórias, mais livros, mais longe, mais galerias inteiras, até que não sobrasse livros sobre livros.

Só lhe sobrara Estibordo.   

Nele, o ataque foi maior. Todos os recortes, tudo que recontou com recortes, foram destruídos. Não só eles. As proximidades do que construiu também. Rasgava, empurrava, aniquilava histórias. Os contos de Machado de Assis iam se misturando com Balzac; Saramago teve várias páginas cortadas e enfiadas em um manuscrito de André Vianco, jamais publicado; Homero era apenas uma capa vazia; Dostoiévski sumiu em pó. Histórias que se iam, perdiam e misturavam.

Quando percebeu o apagar das luzes, voltou para Estibordo, fechou os olhos e não dormiu.

Barulho longe, no andar superior. Provavelmente outro no inferior. Algo estava mexendo, mas não era ainda. A noite emaranhava na confusão dos ruídos, mas não era ainda. Uma pilha desabou, bem longe, ou talvez rearranjou. Ainda não. As pilhas se desfaziam, refaziam e caiam, ao se arrumar nos demais andares. Não. Eram mais de dois, perdidos na escuridão das histórias confusas. Arrumadores. Barulho na escada, pavimento inferior, era quase. Passou direto, com a respiração presa no peito em Estibordo. Havia de ser hoje, havia de ser perto e, quando ouviu o catar de folhas jogada no chão, alguns passos dali, percebeu que havia de ser agora.

Levantou correndo, sem trombar no corredor. As passadas a sua frente. Menos de 20, talvez 15 a sua frente. Corredor central, menos de cinco passos grandes a sua frente, viu o vulto sumir pela escada. Subiu como pode.

Ele distanciou, brônquio direito, ramificação à esquerda, dezenove passos na sala escura antes de virar à esquerda. Estava no quinto andar. Sete passos na sala, depois dois à direita e atravessava duas salas seguidas antes do corredor.

Sexto andar.

Sete salas grandes, três corredores à direita, brônquio central ramificado em caracol, dezessete passos, uma pilha desabou. Mas ele não virou à direita. Não virou. Onde estava indo? A escada era à direita. Para onde estava fugindo?

Direita no salão principal. Atravessou ele correndo, à esquerda no fim da sala ao lado, era quase de dia, já conseguia vê-lo com precisão, viu outro saindo de um corredor secundário. O que era aquilo? Humano sem peito, dobrado em patas. Corria, ele corria também, não sabia onde, nem como. Sala lateral, mais um salão. No fundo dele, o acervo se abria em uma janela que dava ao céu. Era claro, como nunca viu antes.

Os dois arrumadores de pilhas se jogaram no buraco e ele foi atrás. Não sabia onde estava caindo, contudo havia chão. Muito claro, ofuscado pela claridade, viu os dois subindo em uma espécie de escada, furada. De olhos quase cerrados, tentava os ver, subindo enquanto a janela fechava em suas costas, ao som mecânico de correntes.

Foi cambaleando, mão no chão, tropeçando aos degraus, tentando se equilibrar. O que era aquilo que se esgueirava pelas escadas a sua frente? Eram mais rápidos, acostumados com a luz, ele não os alcançaria, estavam indo, viu outro, quatro, em meios aos raios claros tentava se encostar como podia no chão, pulando degraus, batendo com a perna, se perdendo em tropeços, não havia como voltar, a janela fechada, se fora a biblioteca, só o tropeçar nos degraus a sua frente, enquanto tudo aquilo que conhecia, mas nunca tinha visto, sumia nos degraus das escadas.

No último, terminou em um enorme quadrado. Não era marcado, não tinha cercas, desenhos, nada. Era o lugar onde os arrumadores pularam no céu e voaram. Eram quase dez. O dia nascia e as asas, até então imperceptíveis, os levaram contra o sol.

Tampou seus olhos, filtrando a claridade, tentando vê-los. Não conseguia. Queria ver. Não conseguia. Era muito para se notar. Se foram.

Olhou ao redor e percebeu o enorme bloco de concreto que sepultava a biblioteca. No fundo, onde terminavam as paredes, água. Muita água. Era como se toda sua vida, seus sonhos, sua história, Estibordo boiasse em um caixão de concreto no mar.

Olhou no horizonte. Outras bibliotecas. Pilhas delas. Muitas outras. Perdiam-se na vista. Talvez milhares, cercadas de água, todas fechadas em suas histórias. Incontáveis. Incomunicáveis. A maioria vazia, fechada, sozinha. Em outras, homens semelhantes a ele em cima jaziam, imóveis, magros, tortos, queimados.

Olhou a escada, fechada, parecendo que apenas terminava em uma parede lisa, sem qualquer marca. Sem volta. O que trouxe de estibordo, trouxe em sua memória. Houve um tempo de ler histórias. Era o tempo de fazer a própria história.

Aquilo era o sol, lindo que lhe ardia.