HOMEM DA ESQUINA

Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem acabei. Se tanto ser, só tenho alma. Quem tem alma não tem calma. Quem vê é só o que vê, Quem sente não é quem é. (Fernando Pessoa)

Essas transições não são assim avisadas, preparadas. Não, elas só acontecem. É como aquele garoto, que Maurílio viu certa vez tentando amarrar um fio de lã nas patas de um cachorro. Não aceitou, claro, mordeu o jovem e se foi. Mas o menino voltou. E o cachorro fugiu mais uma vez. Teve outra tentativa. E de novo. E de novo. E de novo. Até que, cansado, o cão acabou deixando ser amarrado. De vez em quando, dava uma mordidinha, avisando que estava doendo. Entretanto, o garoto continuou, enrolando suas pernas. O cachorro achou que está tudo bem. Qualquer coisa era só levantar e andar novamente.

Após ter dado várias voltas com o novelo de lã, Maurílio viu o menino tirar o estilete do bolso. O animal tentou se levantar, assustado. Já tinha visto aquilo. Uma semana antes, o mesmo garoto usou o apetrecho para furar o olho do gato. Mas o cachorro não conseguiu, pois estava muito amarrado. O menino ajoelhou sobre seu pescoço, olhando para Maurílio, que apenas viu, sem nada dizer.

No caminho para o viaduto Santa Tereza, Maurílio sentia aquela angústia de novo. A mesma que sentia pelo cachorro. Como ele não percebeu que foi amarrado?

Conhecia aquele caminho há anos. Sempre morou perto da Praça 7, em Belo Horizonte, na Av. Amazonas e na Av. Afonso Pena, alguns anos em cada uma. Já adulto, preferiu não se mudar. Teve até chance. Era um escritor bem-sucedido. Não um Ricardo Reis, Álvaro de Campos ou Alberto Caeiro, mas um escritor com quatro livros publicados, dois com boa tiragem. Podia morar no Mangabeiras. Contudo, não quis. Não queria perder sua escrita, que de certa forma, se escrevia sozinha. Mais do que autor, sabia que era só um escriba do que emanava das ruas do hipercentro.

E foi em uma esquina da Av. Amazonas com rua Espírito Santo, quatro quarteirões de sua casa, que decidiu sobre o que seria seu quinto livro. Maurílio viu um homicídio. Quatro tiros, em frente a uma de suas lanchonetes favoritas. Foi tão rápido, que só viu o homem no chão. O outro saiu, colocando um revólver na cinta, tampando-o com a blusa. Passou do lado de Maurílio, que ainda segurava seu pão de queijo. Os olhares se tocaram, mas Maurílio não o impediu. Apenas observou. Quando se é escriba da cidade, não se pode dar ao luxo de querer interferir nela.

Na mesma noite, sem dormir, esboçou alguns roteiros: seria um homicídio, ocorrido no hipercentro. Entretanto, a escrita simplesmente não fluiu. Vira muito pouco para escrever.

Assentou de frente à janela, tentado observar o local no qual tudo aconteceu. Em vão. Era longe demais. Escuro demais. Saiu do apartamento, cumprimentando o porteiro, e foi até a cena do crime. Ainda havia sangue seco no chão, mas não havia história.

No outro dia, pegou um ônibus até a Delegacia de Homicídios, que fica em um bairro próximo, no Lagoinha. Perguntou sobre o autor, a arma, o corpo, o motivo. O recepcionista, um detetive de quase dois metros, nada disse. Maurílio não era da família, não era amigo, não era sequer conhecido. Maurílio só conhecia a cidade, mas ela não fora alvejada. Estava somente manchada de sangue.

Voltando ao apartamento, ao descer do ônibus, através de uma vitrine, cruzou os olhares com um homem. Foi pouco, mas o suficiente. No dia anterior, era ele que segurava a arma. O homem do tiro. O homem da esquina. Apenas dois quarteirões de onde estavam agora. Era ele. Maurílio o observou por alguns segundos, enquanto se perdia, novamente, na multidão.

Naquela noite, se assentou no computador e o texto fluiu. João Amaral, o homicida, da esquina e do livro. Era ele. Maurílio batia as teclas rapidamente, enquanto João tomava corpo. Contudo, não seria só um assassino, como imaginou na noite anterior. Assassinos não ficam passeando ao lado da cena do crime no outro dia. Não. João era um psicopata. Ele tinha que matar mais e cada corpo pedia outro corpo.

E as páginas foram sendo escritas. Dia, noite e dia, por várias horas ininterruptas. João não parava e Maurílio tão somente tentava acompanhá-lo. Quando queria descansar, não dormia: se deslocava para Delegacia de Homicídios e assentava nas cadeiras da portaria, tirando breves cochilos enquanto novas histórias apareciam. Não incomodava mais os recepcionistas, pois eles nada falavam. Só gostava do clima. Famílias chorando, namoradas aos prantos, soluços contidos daqueles que simplesmente ainda não entendiam o que haviam perdido. Vários Joãos Amarais. E Maurílio ouvia tudo. Pegava cada ponto de história que entre as lágrimas deixavam passar. Às vezes, anotava em um papel. Às vezes, balançava a cabeça, falando baixo:

_ Não… Não… João não faria assim.

Quando conseguia voltar ao apartamento, colocava tudo no notebook. E a noite se fazia dia, enquanto o dia caia em outra noite.

E mais e mais e mais.

Até que acordou com uma mulher aos prantos. Assustou ao ver que cochilava na recepção, sem ao certo saber se ainda existia Sol lá fora. A mulher contava ao recepcionista que seu marido era pessoa boa, que não sabia de qualquer motivo para ter sido alvejado. Quatro tiros, bem na esquina. Só quatro tiros, nada mais, e o autor saiu, andando, como se nada tivesse acontecido. O lugar: em plena Av. Afonso Penna com a rua dos Tamoios, onde a vítima comia um pão de queijo.

Maurílio sorriu, pois a história se repetia. Apenas a avenida mudou. Um homem, quatro tiros, sem motivo, sem gritaria, sem nada. Na morte dele, não houve soluço como haveria no dia seguinte, na frente da porta da Delegacia.

Só podia ter sido João. Era ele.

Maurílio se levantou. Era isso, seu grande final. João não aceitaria um fim qualquer. Escreveu próximo de quatrocentas páginas, sem conseguir entender como aquilo terminaria. Entretanto, ao ver aquela mulher, compreendeu que, assim como começou sua história, assim terminaria: João Amaral dando quatro tiros.

Não ia ser preso ou morto. Não. A morte de João seria com o fim do livro e isso bastaria.

Foi para o apartamento andando, pois reparou que esqueceu a carteira. No apartamento? Na Delegacia? Em alguma esquina? Talvez. Não tinha problema, caminhar seria bom, mesmo no meio da noite. Foi ideal para pensar em cada detalhe do fim.

Entretanto, ao abrir o documento Word, percebeu que já estava escrito. Palavras por palavras: o mesmo jeito, a mesma forma, quatro tiros, um homem comendo pão de queijo, o hipercentro, a esquina, Av. Afonso Pena com Tamoios, a mesma história da delegacia.

Desligou o notebook, não sabendo quanto tempo ficou relendo aquelas páginas. Se levantou, tentando ver a rua Tamoios pela janela. Era impossível.

Tinha que ir lá ver.

Colocou o notebook embaixo do braço e saiu pela porta, sem responder o aceno do porteiro. Subiu a Av. Afonso Pena, em solavancos, enquanto tateava tudo com a única mão livre. Não queria apenas ver a cidade, hoje, queria senti-la. A banca de jornal fechada, o poste vomitado, a urina na frente da loja, tudo possuía cheiro, tudo possuía tato, tudo possuía gosto.

Chegou à esquina da Tamoios, escura pela noite. Havia sangue. Seco, mas era sangue. Tinha gosto de sangue. Tinha cheiro de sangue.

Como foi que aquilo aconteceu?

Em que momento esteve ali?

Como sabia de tudo?

Quando percebeu, já descia a Tamoios, em direção ao viaduto Santa Tereza.

Foi só aí que entendeu que a última vítima de João Amaral não foi o rapaz do pão de queijo. João estava só começando. Não havia volta. Era ele. Maurílio.

Maurílio só podia observar o quanto estava amarrado.

Não foi Maurílio que jogou o notebook de cima do viaduto, mas foi Maurílio que caiu lá embaixo, enquanto João olhava do guarda-corpo, arrumando a arma em sua cinta.