MANCHAS

Com o café na mão, atualizou os dados do Instituto Médico Legal. Nada de anormal. Apenas três entradas.

Uma mulher, aproximadamente 80 anos, em decomposição. Não havia sinais de violência, não havia testemunhas, não havia causa da morte. Só uma mulher e mais nada.

Entrou no sistema de boletim de ocorrências. Procurou o dela, enquanto queimava a ponta dos lábios com café. Afonsa de Melo Souza, idosa, sem amigos, sem inimigos, sem filhos, sem incomodar. Encontrada três dias após o vizinho do 402 ter começado a sentir um cheiro estranho no seu apartamento. Só no terceiro dia, quando o cheiro impugnou todo o andar, ele se importou.

A segunda entrada era de uma criança. Seis meses de idade. Causa morte: asfixia por meio aquoso. Foi fácil encontrar o boletim de ocorrência do caso. Simplesmente uma criança que não tinha acordado pela manhã.

A terceira entrada gerou certo interesse. DESCONHECIDO 7340052-2021. Homem, por volta dos 20 anos, 1metro e 72 centímetros, magro, cabelo raspado, sobrancelhas arqueadas pela gilete, cinco tatuagens (no braço, escrito “GRACINHA, amor eterno”). Sete disparos de arma de fogo, cinco pelo corpo, duas no rosto, típico de execução.

Não parecia ser um caso para a Delegacia Especializada de Busca às Pessoas Desaparecidas, mas sim de corpo ainda não requerido.  De todo jeito, imprimiu o laudo do IML e as fotos disponibilizadas. Se há um corpo, há uma mãe que o procura.

Pegou os documentos, depositou em um envelope e jogou na mesa, colocando a xicara de café sobre ele, para não manchar a madeira. Arremessou seu corpo para trás na cadeira, colocando a mão sobre a cabeça, enquanto seu peito de cigarro chiava.

_ Nada, senhor Américo?

Ele fez que não com a cabeça.

Américo a conhecia bem. Luciana, ou Amélia, como os investigadores da Desaparecidos gostavam de a chamar, não expressou qualquer nova reação. Apenas sorriu de lado.

A mesa de Américo era na recepção, separada apenas por um balcão. Na pequena madeira, cabiam uma impressora e um computador, que demonstrava seus anos de vida pela forma como o branco da CPU fora se tornando bege.

Desde que fora transferido para a desaparecidos, todos os dias encontrava com Luciana. 8 e meia, 9 horas, no máximo, ela chegava com a foto de seu filho. Cumprimentava a todos que passavam, pois geralmente chegavam após Luciana, às vezes os recebendo com seus quitutes, e ficava esperando as atualizações do IML.  

Hoje, ela tinha levado bolo.

_ E aí, é de que, dona Luciana?

_ Cenoura.

_ Adoro seu bolo de cenoura.

Ela fez que sim com a cabeça, sorrindo de lado. Américo era quase da mesma idade de Luciana, mas o rosto dela revelava o peso dos últimos anos.

_ Amanhã não venho, Américo.

_ Eu sei…

Seus olhos se cruzaram e ele percebeu o sorriso dela se esvaindo.

_ É o aniversário dele, né?

_ É…

Américo enfiou em sua boca um pedaço de bolo inteiro que tinha acabado de retirar da vasilha de plástico de Luciana.
_ Bom dia, Américo! Dona Luciana! Opa, hoje tem bolo.

_ Pega, João. É de cenoura.

_ Opa.

João pegou um pedaço de bolo e seguiu pelo grande corredor ao lado da mesa de Américo, que desembocava no restante da delegacia.

Américo pegou mais um pedaço de bolo, enquanto Luciana apenas o observava. Ela não tinha costume de comer as coisas que levava à delegacia. Ela gostava apenas de vê-los comendo. Era isso.

Américo limpou sua mão na calça quando não havia mais nada na vasilha.

_ Esse bolo pede mais um café. Aceita?

_ Não.

_ Tem certeza? Não é seu bolo, mas pelo menos não é aquela porcaria de café Pelé que o estado manda. Fizemos uma vaquinha.

_ Melhor mesmo, Américo. Você falou que estava dando dor de cabeça o café que o estado mandava.

_ Eu falei dor de cabeça? Acho que fui educado com você. Na verdade, o banheiro aqui ficou com fila de espera por 4 dias seguidos até descobrirmos o que estava causando isso.

Ele sorriu de lado para ela, que retribuiu.

O café ficava perto do balcão, em uma mesinha ao lado da de Américo.

_  Tem certeza?

Ela fez que não.

Ele tomou o café.

_ Bem, acho que vou embora.

_ Claro, vai sim.

_ Amanhã não venho. Se tiver algo…

_ Te aviso.

Ela olhou para o envelope que ele tinha colocado sobre sua mesa.

_ É só mais um desconhecido, Luciana.

_ Loiro?

Ele fez que não com a cabeça. Ela olhou para o chão, antes de voltar-se para ele.

_ Vai ser difícil achar esse?

_ Não. Homem, com uns 20 anos. Cabelo raspado, sobrancelha cortada, tatuagem.

_ Morreu de quê?

_ Sete ou oito tiros, não lembro.

_ Ah, então alguém viu.

_ Deve ter visto. Não foi em terreno baldio nem nada. Meio da rua. Parece que era uma boca de fumo.

_ É, vai ser fácil para você, Américo.

Ela disse, balançando a cabeça.

_ Vai. Ele tem uma tatuagem ainda com um nome. Gracinha, eu acho.

_ Nome de mãe.

_ Deve ser. Ninguém bota o nome de Gracinha em uma pessoa com menos de 70 anos.

_ Não.

_ Vai ser fácil de achar. Meia hora no máximo. Você vai ver! Em meia hora, no máximo, a mãe chega aí, para fazer o registro de desaparecimento dele. E procedimento fechado, mais um para a meta!

Ela sorriu de lado.

_ Mulher de sorte a mãe dele.

Américo olhou para ela, que retribuiu com um piscar, lento.

Ele se queimou no café.

_ Vou indo.

_ Até mais.

_ Se aparecer algo…

_ Eu te ligo, senhora Luciana. Pode ter certeza.

E saiu pela porta enquanto fechava a vasilha do bolo.