O mal estar na fila

O mal estar na fila

De todos os ódios que meu pai possui, talvez um dos maiores seja o de filas. E olha que estamos tratando de um homem que mora no Brasil, local mundialmente reconhecido por sua vasta gama de coisas para se odiar, como rodovias esburacadas, corrupção, assaltos constantes, cariocas… Para ele, tudo isso é muito insignificante perto do pavor de se estar em uma fila.

Não estou brincando! Ele odeia mesmo! Certa vez, quando ainda morávamos juntos, me avisou que eu iria com ele no supermercado Epa no sábado, comprar carne. Claro que fiquei com preguiça! Entretanto, naquela época, meu pai não dava ordens, como: “Amanhã você irá comigo no Epa!”. Ele apenas fazia uma constatação: “Amanhã você irá comigo no Epa.”. Como uma das poucas coisas que pais odeiam mais do que filas são filhos desobedientes, concordei com a tarefa.

No outro dia, fui acordado às 6hs da manhã, para minha surpresa. O motivo do meu pai para me despertar neste horário era claro: de madrugada, não há filas. Claro que não! Há assaltos, homicídios, estupros, suicídios de filhos que são forçados a acordar cedo, mas não há filas! Assim, por volta das 6hs e 45min, nós dois estávamos na frente do Supermercado Epa Padre Eustáquio.

Uma pena que ele só abre às 7hs.

Ficamos esperando na porta, cumprimentando os primeiros funcionários que chegavam, um mendigo e um padre, que estava voltando de uma vigília. Quando foi às 7hs, em ponto, abriram a porta principal.

Todavia, do nada, como um Relâmpago Mcqueen, passou um senhor correndo por nós, em direção ao açougue. Até hoje não sei de onde ele apareceu, se tinha dormido na porta do Epa, se estava escondido em uma moita ou se era só um desajuizado, como nós dois.

Meu pai, assustado, virou para mim, que ainda estava em choque, e gritou:

_ Lucas! Pega o carrinho e vai pra carne!

E disparou atrás do amalucado.

Meio que catando cavaco, corri até o carrinho de compras e o empurrei quase sem fôlego até o fundo da loja, local do açougue. Lá estava o senhor e meu pai, logo atrás dele. Só os dois. Nem o açougueiro havia chegado.

Mas não são só esses dois seres humanos peculiares que odeiam filas. Não! Os brasileiros em geral as odeiam. Os supermercados possuem noção disso e, por esse motivo, tentam reduzir essa frustrante experiência do nosso dia a dia: alguns estão colocando senha eletrônica no açougue (você pode ir fazendo suas compras enquanto não é chamado, o que te faz esquecer que está em uma fila), caixas rápidos (para pessoas que possuem tanta pressa que preferem não comprar nada, só para não esperar sua vez de ser atendido) e caixa de idosos (não se enganem! A separação dos idosos não é para melhor acolhe-los, mas para evitar que eles atrapalhem os outros atendimentos).

Em vão! São medidas apenas paliativas. Não há como terminar com elas, sempre estarão lá, perpetuando nosso ódio até eternidade.

E por que as odiámos tanto? Há muitos estudos sobre o tema, quase todos inconclusivos. Alguns apontam que seja o tempo perdido, a tia conversadeira, o moleque hiperativo ou até mesmo o fato de sempre estarmos na mais demorada (a fila é um local no qual a estatística não tem efeito: nela, você tem 33% de chance de estar na mais rápida, em relação as duas ao lado, mas quase 85% de estar na mais lenta).

Eu, por outro lado, desconfio que elas nos mostram que não somos tão importante assim, por isso as odiamos. Na fila, todos são iguais, o que importa é o lugar no qual estamos. E esperar nossa vez é sempre uma aula de humildade.