O quinto – parte 2

Larissa se afastou um pouco da casa, saindo pelo portão da frente até a rua de terra batida. Acendeu seu cigarro, perto de uma árvore. As baforadas quentes aqueciam seu rosto e as brasas eram praticamente as únicas luzes daquele local esquecido – salvo um poste artesanal, cerca de 15 metros dali.

_ Larissa, dando uma?

Luiz chegou perto dela. A investigadora preferiu dar uma puxada antes de responder:

_ E as testemunhas? Conversou com elas, Luiz?

_ Tudo com medo.

_ Mas ouviram algo?

_ Ouviram. A casa do lado é de um bebum. Fala nada com nada. Até mostrou as galinhas que tinha.

_ Do outro lado?

_ A casa da tia do casal, 70 anos mais ou menos. Gorda também. Tá chorando muito. Ficou em casa o dia inteiro, conversou com a porra do Leandro de tarde, pedindo que pegasse boldo na esquina para ela fazer um chá para a sobrinha.

_ E os disparos? — Larissa perguntou enquanto escorregava seu corpo pela árvore.

_ A velha só disse que estava na sala quando ouviu os disparos. Ouviu a sobrinha gritando. O pai de Leandro nem gritou. Deve ter saído do banheiro, tentou pular a janela e tá lá até agora. Ela não faz a mínima ideia de quem atirou. Está chocada. Diz que normalmente a sobrinha e o marido vão à missa neste horário. Parece que foi uma fatalidade mesmo.

_ Essa tia é sozinha?

_ Se teve homem, faz anos que não dá.

_ Ela disse as horas dos tiros?

_ Sete, sete meia. Falou que estava vendo TV.

_ Foi ela que ligou para a PM?

_ A gorda em pessoa.

A policial olhou para o relógio. “2 horas da manhã. Acionaram a gente às 10 horas. A PM tinha acabado de chegar. Acionaram umas nove horas os militares. Eles estavam mortos uma hora e pouca, quase duas antes da tia acionar a PM”. 

_ Ela conhece o Bidu?

_ Não me disse, Larissa.

Deu mais uma tragada. O calor, a fumaça, os dedos queimados do cigarro de palha, tudo aquilo a fazia viva no meio de tantos mortos.

_ E a vizinha do fundo?

_ Namorada do Leandro. Quem falou foi a tia dele.

_ E por que não está em casa?

_ Tá dando. É puta. Está na Guaicurus, no motel Magnífico. Os militares foram lá conversar com ela.

Deixou um pouco o cigarro queimando na mão, enquanto soltava os restos da fumaça que agarrava em seus pulmões.

_ Chefe. – Luiz sabia que Larissa só o chamava assim quando queria algo – Vamos entrar na casa da velha.

 

Os dois desembainharam suas armas, subindo a rua. Um carro certamente passaria por ali, apesar do barro que se espalhava pelo local e do receio de queda no barranco que dava para frente das casas. A residência da tia do casal já estava toda apagada, com exceção da televisão, que os policiais facilmente viam pelo vidro translúcido da janela da rua.

_ Dona Conceição. – gritou o inspetor batendo na porta – Dona Conceição.

A porta também era de vidro translúcido, o que permitiu que os policiais vissem um vulto se levantando e aproximando. Ao segurar na maçaneta, o vulto demorou mais tempo que o necessário para girá-la. “Está com medo”.

Uma senhora, obesa e encurvada, muito marcada pelo sol e rugas, abriu a porta, não muito, mas o suficiente para revelar o interior do local. Larissa olhou primeiro o cômodo, antes de olhar em seu rosto. Era um barracão, uma sala que dava de frente para a TV, com o colchão no chão. Um corredor seguia pela lateral, dando abertura para a porta de um cômodo e finalizava em um fogão, embaixo de uma janela basculante, que encerrava o barracão.

_ Dona Conceição, esta é minha amiga, investigadora da homicídios.

_ Tudo bem, dona Conceição?

A idosa nada respondeu, mas era visível que havia chorado.

_ A senhora está vendo o quê? – Luiz tentou fazer uma ponte, que logo foi destruída por Larissa:

_ A senhora dorme aqui nesta sala? No chão?

A senhora apenas fez que sim com a cabeça, sem certeza.

_ E quem dorme naquele cômodo?

A senhora não respondeu, enquanto uma lágrima escorreu pela sua bochecha. Larissa forçou a porta, afastando a mão de Conceição para longe. Com a arma em punho, na altura dos olhos, Luiz atrás, apontava para a porta lateral, engatilhada, pronta para atirar se visse qualquer movimento. A idosa começou a gritar que não tinha ninguém, tentando puxar o inspetor, que a empurrou, fazendo-a cair sentada no sofá.

A investigadora forçou a porta do único cômodo separado, enquanto Luiz passava ao seu lado, indo para a cozinha. O quarto, desnudo em tijolos sem reboco e com uma janela dependurada na parede, tinha uma cama de solteiro e uma arara de roupas, com camisas de time misturadas com roupas largas, típicas de pessoas idosas. Do lado da cama, no chão, imagens de Nossa Senhora das Dores e, encostada nelas, uma foto: Conceição, alguns anos mais nova, e um garoto.

O inspetor entrou na cozinha, se assim podia dizer o cômodo que guardava apenas um fogão e uma pia, sem armários. Varreu todo o ambiente em segundos, com a arma em punho, inclusive vendo, pela janela basculante, que a geladeira ficava do lado de fora, escondida por um toldo de amianto. Havia uma porta, que Luiz chutou. Tinha bananeiras e mato em todo o terreno, até se perder em uma espécie de encosta. Na geladeira, cerveja, água e panelas com comidas antigas.

Ao retornar para a sala de TV, viu Conceição chorando, no sofá, com a mão no rosto. Larissa desengatilhava a arma, em pé ao seu lado:

_ Está na hora de falar o que sabe, dona Conceição.

 

Regressaram para a casa, onde os peritos finalizavam as diligências rotineiras, apreendendo estojos da arma utilizada e fotografando as últimas mossas na parede. Cabo André interceptou os investigadores ainda no portão da residência.

_ Achamos a garota de programa, Luiz.

_ Temos algo melhor, André. – ele o interrompeu. Eram companheiros de serviço fazia pelo menos 10 anos, não havia mais formalidade entre eles, apesar do desgosto do inspetor com os militares – A velha deu o primo do Leandro, Marcos. Conhece? Filho da puta matou o próprio primo. – disse estendendo a fotografia que alguns instantes antes estava no quarto de dona Conceição.

_ Não conheço. Onde ele tá?

_ A gorda não sabe. É novo aqui.  Foi desacerto. Manda o RG pro tático colocar no rádio. Vai que alguém acerta ele. – e  estendeu um papel para o cabo.

André fez uma breve chamada no rádio e mandou uma foto da fotografia de Marcos para um grupo de whatsapp dos militares da região. A investigadora acendeu mais um cigarro.

_ A puta disse algo? – perguntou Luiz ao militar.

_ Não. Disse que estava trabalhando, que foi com dois caras para um sítio e depois foi direto para o motel Magnífico. Encontramos ela lá.

_  O namorado morre bem no dia que sai para dar mais cedo. Pelo menos teve dois paus para consolar a morte do corno. – o inspetor cuspiu no chão antes de continuar – Ela disse onde foi com os caras?

_ Não sabe dizer o endereço nem onde é. Disse que não conseguiria levar a gente lá. Mas álibi é álibi, ninguém espera que puta dê seus clientes.

_ Ela tá mentindo. – interrompeu Larissa, jogando o cigarro no chão – Temos que ir lá, chefe.

_ Como cê sabe?

_ Se tu fosse mulher, entrasse no carro com dois homens, que nem te conhecem e estão loucos para te foder, você com certeza saberia onde eles te levaram.