O QUINTO – última parte

A entrada do motel Magnífico, um edifício histórico na parte baixa do centro de Belo Horizonte, escondia um dos maiores núcleos de prostituição da região. A viatura parou bem em sua entrada, na contramão, com giroflex ligado, fazendo com que dois homens que estavam na esquina, do outro lado da rua, se afastassem de cabeça baixa.

Luiz entrou por uma estreita porta, que dava acesso aos quartos superiores. Larissa seguia-o de perto, com a mão na arma em seu coldre, ao contrário do inspetor, que se deslocava com desenvoltura.

_ Marcinho. – disse abrindo uma porta, no fundo de um longo corredor iluminado com lâmpadas avermelhadas. – Onde que está a puta?

Um homem de meia idade, com poucos cabelos e barba grisalhas, assentado atrás de uma mesa de escritório arranhada e com marcas de copos, tentou se levantar, mas percebeu que não eram necessárias formalidades naquele momento.

_ Não sei de quem você está falando.

O inspetor puxou uma cadeira, se sentando de frente para o cafetão.

_ Segredo da profissão?

Marcinho sorriu.

_ Ela saiu, Luiz. Depois que conversou com os PMs, ela fez umas ligações, desceu e foi embora.

_ Você sabe com quem?

_ Eu não pergunto nem com quem elas fodem aqui dentro, vou perguntar com quem elas fodem lá fora?

_ Ela saiu para foder no dia que o namorado morreu? – interrompeu a investigadora.

_ Como vou saber?

_ Ninguém tem um puteiro deste tamanho sem saber onde sua mão de obra está. – retrucou ela, levando ao nariz um copo que estava na frente do cafetão– Você bebe pinga todo dia?

Marcinho olhou para a mesa por um tempo, puxando algumas lascas da madeira com o dedão. 

_ Vou mostrar para vocês a câmera de segurança do hotel… E já estou fazendo mais do que deveria.

 

A câmera dava para a escadaria principal. Marcinho a tinha instalado alguns anos antes, depois de um tiroteio acontecido na própria escadaria. Achou que a câmera afugentaria alguns clientes, mas a troca de tiros reduziu sua clientela em quase quarenta por cento nos cinco meses subsequentes.

A imagem não era muito focada, mas dava para ver claramente a garota de programa, sobre seus longos saltos, entrando em um veículo preto, mas não dava para ver quem estava dirigindo. Luiz pediu o telefone da garota, Marcinho não negou, sabendo ser inútil qualquer resistência. Além do mais, ele sempre preferiu não se envolver, para continuar com seu motel aberto.

Na frente da rua, havia uma farmácia 24 horas, tendo Luiz se deslocado para o local assim que saíram do motel. Larissa encostou na viatura, acendendo seu cigarro enquanto mexia no celular com a mão livre. Alguns homens embriagados – e no mínimo três craqueiros – passaram perto dela, olhando fixamente para a investigadora. Um, inclusive, adentrando ao motel, passou próximo a ela, mas não teve disposição suficiente para falar algo, apesar de ficar olhando seu corpo como uma peça que poderia facilmente ser comprada.

Ela jogou o cigarro longe quando seu chefe voltou.

_ A farmácia tem as filmagens. Estão baixando e vão me encaminhar pelo celular. – disse  Luiz se encostando ao lado dela. – Uns cinco minutos e estamos com elas.

A investigadora olhou para as árvores, que fechavam o horizonte da rua a sua direita, escondendo o asfalto que subia no horizonte. Era quase quatro horas da manhã, sua cabeça começava a cansar, doendo levemente na lateral.

_ Temos que achar a puta antes do pessoal sair, Larissa. Vai ficar foda achar a vagabunda com a cidade cheia.

_ Enquanto você estava na farmácia eu olhei uns BOs. O Marcos tem um monte de ocorrência de tráfico, desde os 12 anos. Era gerente na Pedreira Padre Amaro, mas correram com ele de lá. Tomou três tiros faz dois anos. O BO fala que o Nody era suspeito.

_ Esse Nody aí tá morto. Os velhos donos retomaram o poder da Pedreira. Fui no local do homicídio dele, 17 tiros. A cabeça parecia uma melancia amassada por um pneu. Até a família dele fugiu de lá. 

Larissa continuou fumando no carro, enquanto Luiz esperava as filmagens. “Marcos era gerente, saiu corrido da Pedreira. Foi para a ocupação. Nody mandou matar. Nody morre. Marcos não volta para a Pedreira. Por quê? Os antigos donos tomaram conta do lugar. Não deve ter valido a pena voltar. Pode ser que ele queria virar chefe da ocupação sozinho… Pode ser que ele queira parar de mexer com tráfico de drogas”.

Voltando-se para o celular, a investigadora abriu os Boletins de Ocorrência de Bidu. Traficante na ocupação desde muito novo. A primeira passagem com nove anos, quando perdeu uma carga de 25 pinos para os PMs. Larissa conhecia esta história: quem perde, tem dívida, que nunca mais será paga. Uma outra passagem chamou a atenção. Fazia três dias. Bidu era suspeito de um roubo acontecido numa padaria perto da ocupação. Cerca de quinze mil reais foram subtraídos. Bidu deu azar: o dono da padaria o reconheceu. A PM o procurou no dia, mas não encontrou.

Além disso, Bidu não estava só. Havia outro, que ficou armado perto da porta, e um terceiro no carro, utilizado na fuga. Na hora de sair do estabelecimento, um desacerto: o homem da porta pegou a sacola de dinheiro com Bidu, mas, enquanto se deslocava para o veículo, esbarrou com uma senhora. No susto, efetuou três disparos de arma de fogo com sua pistola semiautomática.

_ As filmagens chegaram, Larissa. 20 minutos. Vou ver se consigo achar a puta. – disse Luiz, abrindo um editor de imagens que tinha em seu celular.

A investigadora puxou a ficha de antecedentes de Leandro. Apenas três passagens policiais, pouco em relação aos demais, sendo as três contra sua então namorada, uma por ameaça e duas por agressão. “Foi de gaiato”.

Larissa tentou acender mais um cigarro, mas o isqueiro falhou.

_ Chefe. Bidu estava num roubo faz três dias. Estava com dois outros suspeitos. Um deles, atirou três vezes. Matou uma senhora. – o inspetor olhou para ela, antes de se voltar para o celular – Desacerto de bandido novo. Ele trombou com a mulher e disparou.

_ O que você está tentando me dizer, menina?

 _ São só ilações. Só isso. Mas acho que Bidu e Marcos armaram um assalto. Bidu era envolvido antigo, sabia o que fazer, então deu as caras no assalto. Marcos era experiente também, conseguiria fugir dirigindo o carro, sem o desespero de um iniciante. Só precisavam de mais um, para garantir a porta. Podia ser um menos experiente. Acho que Leandro estava na porta. Quando Bidu passou a sacola de dinheiro, Leandro saiu correndo e trombou com uma senhora. Dedo no gatilho, fatal, três disparos e uma senhora no chão.

Luiz parou, respirando fundo, tinha visto a puta saindo do motel. Tentou ampliar a imagem.

_ A sacola de dinheiro ficou com Leandro. Normal. Leandro é o que tinha menos passagens e era o menos suspeito. Com ele, a sacola de dinheiro ficaria mais guardado do que com Bidu e Marcos: Bidu mora no aglomerado desde sempre e Marcos é muito bronqueado…

_ E aí eles resolveram matar Leandro e o Bidu resolveu dar um tiro na própria testa?

_ Marcos coordenou a morte dos dois.

_ Como?

_ Leandro era iniciante e deu um tiro em uma velha. Devia estar desesperado. Um latrocínio é muito pesado. Ainda mais de uma idosa. Ela apareceu em toda TV faz três dias. Marcos achou melhor matar Leandro. Para convencer o Bidu que era necessário matar o primo, acredito que ele avisou para Bidu que Leandro não tinha passado o dinheiro.

_ Como você sabe disso? Ele podia ter simplesmente dito que Leandro tava falando demais e que tinham que matar ele.

_ Não. Tinha terra na mão de Bidu, quando encontramos o corpo dele. Bidu e Marcos vão na casa de Leandro. Como são conhecidos, chamam e esperam que Leandro vá até o portão – e lá ele é fritado. Eles vão então até o meio das bananeiras, lugar onde Marcos deve ter dito que viu Leandro enterrando o dinheiro. Bidu começa a cavar e Marcos vai para outro lado, fingindo procurar o dinheiro também. Nesta hora, enquanto Bidu se encostava na tela, tentando procurar uma sacola ou caixa, cavando no meio do barro, vem o tiro fatal, na cabeça. E é isso.

_ E a puta? Por que ela está fugindo da gente?

_ Ela deve estar com medo de virar suspeita. Saiu hoje com dois homens. Devem ser Marcos e Bidu.

_ Então ela mentiu sobre o programa?

_Acho que não. Devem ter pago ela.

_ Ela tava dando para os amigos do namorado?

_ E você nunca quis comer a namorada de nenhum amigo, chefe? Acho que eles levaram ela para pegar o máximo de informações. Ela apanha do Leandro sempre, devia estar com raiva. Falou bastante. Você lembra que a tia vizinha disse que hoje era dia de missa? Que normalmente os pais de Leandro não ficam em casa neste dia? Eles devem ter achado que a melhor oportunidade era justamente matar Leandro hoje, durante a missa.

_ A tia falou algo de chá de boldo para a sobrinha. Devia estar passando mal.

_ Ou o marido. Pode ser isso que deu errado. A mãe estava dormindo e o pai no banheiro, não podiam ver Marcos atirando em Leandro, mas devem ter ouvido Leandro sendo chamado no portão e com certeza ouviram os disparos. Você sabe. Os algozes tinham que passar pela casa para chegar nas bananeiras.

_ Só não contavam que um homem cagado estava tentando pular a janela.

Larissa fez que sim com a cabeça, enquanto procurava outro isqueiro em seus bolsos da calça. Não tinha.

_ Eu acho que, depois de matar os dois, ele tinha que continuar com o plano. Levou Bidu para o fim da casa, aproveitou quando estava desprotegido e enfiou um tiro em sua têmpora. Queima de arquivo ao mesmo tempo que tentou fazer parecer suicídio. Inteligente. Para ele, foi só isso: quatro mortos, o principal suspeito aparenta cometer suicídio e ele fica com todo dinheiro do roubo. Todas as provas apagadas.

_ Nem todas. – disse Luiz mostrando o celular para a investigadora – Ainda faltava fritar a puta.

Larissa viu nas filmagens a ex-namorada de Leandro entrando num carro dirigido por Marcos.

 

O próprio Luiz acionou o grupo tático da Polícia Civil e o Cabo André, pedindo que se deslocassem imediatamente para a Pedreira Padre Amaro. Marcos não levaria a prostituta de volta para a ocupação onde morava, então provavelmente se deslocaria para próximo de sua antiga residência, agora dominada por companheiros de tráfico.

 Os dois policiais chegaram muito antes dos demais grupos, parando a viatura ao lado de um carro preto, ao pé de um grande escadão. O inspetor deixou o giroflex ligado, tirou a arma e foi à frente, subindo degrau por degrau enquanto um leve suor escorria por seu pescoço. Larissa o seguiu de perto. A Pedreira não era grande, mas era altamente confusa para quem ingressava pela primeira vez nas vielas.

Eles subiram dois quarteirões na escada, mal iluminada, acabando em uma espécie de beco, retorcido entre as casas. Luiz colocou a arma na altura dos olhos, temendo ser surpreendido por qualquer movimento ou disparo sorrateiro. Ela, por outro lado, apontava a sua para as escadas e casas de três, até quatro andares que se espalhavam desorganizadamente.

O beco parou em outra pequena escada, esta talhada na própria pedra, sobre a qual a aglomeração se construiu assim que uma importante mineradora abandonou a cava que havia ali. Continuaram subindo, passando em uma espécie de campinho com um gol de madeira, no meio de várias casas, e entraram em um beco estreito e curvo.

Luiz viu uma mulher, em uma curva. Ela se assustou e encostou na parede do beco, olhando para baixo. Não eram cinco horas da manhã e ela já saia para o trabalho. Larissa não a olhou, havia lugares demais para serem emboscado por ali, fazendo com que sua atenção ficasse redobrada em todas as janelas viradas para a passagem. Foram duzentos metros de caminhar em silêncio, quase sem luz, em meio ao esgoto escorrendo entre as pedras e às casas com cheiro de urina em suas portas.

Até que chegaram à última residência, abandonada, com janelas quebradas que se davam para um grande clarão: sem árvores, sem luz, sem gols, sem urina, apenas uma pedra grande de calcário se estendia, debruçando sobre Belo Horizonte. Um mirante que tudo podia observar, todas as ruas, todos os pontos, todos os carros, todas as janelas lentamente acendendo no raiar do dia. Seria lindo, se no meio do calcário, cinco pneus equilibrados, em fogo, não escondessem um corpo.

A investigadora correu até os pneus, mas viu que era tarde demais. Nem sequer tentou tirar a garota de programa, já em brasas. O inspetor guardou a arma. Conhecia bem aquele ponto, o “pedrão”, local de extermínio. Não havia outra saída possível daquela enorme rocha, a não ser o beco pelo qual vieram. Marcos já estava longe. Não seria pego. Não hoje. Talvez nunca.

Cansados, Luiz encostou na beirada de uma pedra, vendo a cidade tomando vida no fim daquela noite, enquanto Larissa acendia um cigarro nas chamas que saiam dos pneus.