O quinto – parte 1

 

_ Tem mais um aqui.

Era o quarto corpo em uma noite que não tinha nuvens, nem estrelas, nem vento, nem choro. Era noite de morte calma. Morte sem testemunha.

“Entraram pelo portão que dava para a rua. Não pularam o muro. O primeiro corpo estava no chão, caído no portão. Leandro, usuário, barriga para cima, cigarro de maconha no bolso. A casa não tem campainha e o portão é de grade. Alguém chamou a vítima, que foi até o portão, abriu, tomou o primeiro tiro, caiu no chão, recebeu mais quatro tiros. Cinco tiros.”

Tudo fazia sentido até ali para Larissa. Não era fácil ser investigadora de homicídios, contudo, com o tempo, as histórias começam a se contar sozinhas. Mesmo que nenhuma morte, nunca, tenha sentido.

“Leandro. Usuário e talvez aviãozinho. Niguém que é envolvido com o tráfico sai de noite para atender o portão. Tem que ser alguém que conhecia o Leandro. O Leandro só sairia de sua casa e iria até o portão, no meio da noite, se conhecesse quem o chamava. Ele nem levou a arma. Tem que ser alguém conhecido.”

Tropeçou no mato. Aquela casa era peculiar, se pensasse que era em Belo Horizonte, mas não para o bairro, de aparência rural. Uma ocupação, local onde várias famílias se abrigam, se defendendo do estado – e local para onde o estado expulsa várias famílias, as quais não quer abrigar. A vizinhança, espaçada, diferente de nossas favelas, lembrava campo, no entanto era marcada pela maldade que o tráfico de drogas só encontra nas grandes cidades.

A mãe de Leandro estava no quarto, certamente poderia falar sobre a morte do filho, claro, se agora não estivesse seminua, com os seios à mostra, seu corpo girado, com dois tiros nas costas. “Tentou sair da cama. Dois nas costas. Era obesa”. Aquilo não tinha nenhuma relevância, mas ficava ressoando na cabeça de Larissa. “Ela dormia, quando tudo começou. Mal conseguiu levantar-se. Não se cobriu. Mulher tampa os seios. Ela ouviu o disparo que matou seu filho na cama. O peso não a deixou levantar a tempo.”

Pulando uma espécie de campina, Larissa chegou nas bananeiras, no fundo do lote. A única iluminação provinha das luzes de celulares de quatro militares. Era o quarto corpo.

_ É da família também?

_ Não – disse cabo André, um militar conhecido da região e de Larissa, sempre muito voluntarioso e que visivelmente se orgulhava de ter visto o corpo entre as bananeiras e a cerca que separava os lotes – É um traficante daqui. Conheço bem ele.

_ Como chama?

_ Bidu. Vende drogas aqui perto.

O corpo no chão, de joelhos. A mão ainda segurava na grade que cercava o fim do terreno dos pais de Leandro e o começo do terreno do vizinho do fundo. Sua cabeça entre as pernas, mesmo assim, era claro que parte do crânio havia sido destruída com o tiro. O sangue que escorria nas bananeiras se juntava à grade em um ato contínuo de gotejar até as pernas de Bidu. A arma, ainda encostada na mão longe da grade, com o cano ensanguentado. Uma pistola .940 da Tauros. Larissa tinha uma igual.

“Leandro estava na porta, no portão, quando foi atingido. O assassino dá mais alguns tiros nele, quando está caído, e vai em direção à casa. A porta da frente dá para a janela – e o pai é atingido. A mãe, ele encontra na cama. Depois ele sai, vem para as bananeiras, segura na grade, ajoelha e se mata com o tiro na cabeça. A história está bem contada demais para um homicídio”.

_ Bidu conhecia Leandro?

_ Sim. Aqui não tem jeito de vender droga sem conhecer um ao outro. Ficam tudo na mesma rua.

_ Eram namorados?

_ Não… Ele se matou?

“Parece suicídio. Não é.”

Luiz, inspetor da equipe de Larissa, chegou naquele instante, passando por outro caminho, no meio das bananeiras.

_ Mais um, Larissa?

Ela não respondeu. Luiz empurrou levemente a cabeça de Leandro com a ponta do sapato, tombando um pouco o rosto dependurado antes que ele voltasse para o meio das pernas.

_ Essa merda se matou? – perguntou Luiz.

_ Não. Colocaram a arma na mão dele. O dedo não está no gatilho. – respondeu Larissa. 

Luiz abaixou um pouco, para contemplar mais o corpo. Roupas intactas, sequer bagunçadas, nenhum hematoma ou machucado na face, nem no pescoço. Era o que podia ver sem tocar o corpo. A mão direita encontra-se um pouco suja de barro, apenas a mão da pistola, enquanto a outra se equilibrava na grade, segurando parte do peso do corpo.

_ Foi um tiro encostado na cabeça. Olha como que esta merda está arregaçada. Foi colado no osso. Está aberta a entrada. O rapaz está ajoelhado. Quem faria este desgraçado ajoelhar, sem machucar ele, e depois daria um tiro na cabeça? Quem se ajoelharia, sem lutar, para tomar um tiro?

_ Alguém que confiava muito em quem atirou, ou que foi enganado.

Ficaram algum tempo olhando o corpo, sem nada dizer, até que a perícia chegou próximo às bananeiras. Larissa e Luiz voltaram para dentro da casa. Não houve arrombamento, as janelas não foram escancaradas ou forçadas. Voltaram para a figura do pai, a mais vergonhosa. Ele estava com uma bermuda perto do joelho, a cueca cobria a bunda e o corpo jogado sobre a janela ao lado do banheiro. “Alvejado enquanto pulava, dois disparos nas costas. Tem fezes na roupa. Ele nem acabou de ir ao banheiro quando ouviu os disparos”.

_ Tem quase dezesseis militares aqui. – contou Luiz – Todo mundo morto, mas tem dezesseis militares. Eles vão sujar tudo. Sabe se eles já conversaram com os vizinhos, Larissa?

_ Não. A casa do fundo está vazia. Já as outras, são tampadas por árvores. Não conseguem ver nada que aconteceu da rua ou das outras casas.

Luiz olhou novamente para o homem na janela. Já trabalhava anos na região, quase cinco vezes mais do que Larissa. Conhecia todos e tudo que acontecia, mas sempre, sempre, era surpreendido com o que podia acontecer.

_ O filha da puta estava cagando.

Larissa só lhe respondeu que sim com a cabeça.

_ Tudo bem matar o Leandro. Eu mesmo já vi ele na boca de fumo. Agora, e o pai dele? Nem cagar ele pode.

_ O pai era traficante?

_ Não. Era homem simples. Vi ele pouco. Bebia muito, mas era um cara bacana.

_ Você acha que eles entrariam para matar ele?

_ Não. Vieram matar o noia do portão.

Luiz foi até o banheiro, voltando com cara de nojo.

_ O cara já estava morto por dentro. – disse, sorrindo sozinho.

“Mataram Leandro. Mataram sua família. No fim, eram só testemunhas. Quem quer que fosse, queria que tudo relacionado a esta morte morresse hoje. A mãe no quarto, cortina fechada e janela de madeira. O pai no banheiro. Mesmo depois de executarem Leandro, entraram na casa e mataram os dois. Não dá para ver o portão de nenhum desses lugares.”

Era exatamente a mesma coisa que Luiz pensava naquele momento:

_ Por que alguém mataria este povo? Nem a gorda nem ele viram nada.

Larissa ficou olhando para o homem da janela por alguns segundos antes de responder:

_ Talvez você mate uma testemunha que não viu, mas ouviu alguma coisa.

Luiz olhou para a porta, encarando a escuridão que apagava a noite assim que a vista passava por ela.

_ Acho que temos que encontrar os vizinhos.