Quando as coisas eram de graça

Quando as coisas eram de graça

As coisas realmente gostosas nesta vida são gratuitas. Aliás, eram, até gourmetizá-las.

Pense em nossos ancestrais. Nossos tata(…)taravos (que provavelmente se chamavam Geraldo, pois 2/3 dos idosos se chamam Geraldo) acordavam em suas cavernas, bebiam água no riacho, iam até a o quintal pegar uma goiaba, faziam filhos e voltam para casa, para dormir. Não havia trabalho, horário, dor de cabeça, nada disso! Nem trânsito, afinal de contas, os Geraldos só comiam, bebiam e paqueravam perto de suas cavernas. Não é igual hoje, que você tem que atravessar a cidade para comer um macarrão especial (que tem gosto de Miojo), com uma bebida que veio de outro país (que te deixa tonto do mesmo jeito) e, no fim da noite, ainda tem que levar sua companhia em Betim (porque, no Tinder, ele/a falou que morava no Barreiro e você acreditou).

Nem parece que somos descendentes dos Geraldos. Quase nada sobrou deles em nosso coração.

Atualmente, não basta dormir, tem que ser como “nas nuvens”. Antes, satisfazia aos Geraldos entrar em sua caverna e deitar. Se fechava o olho, Geraldo dormia. Já a gente tem que comprar um colchão com espuma viscoelástica e estrutura de molas pocket para dormir. E mesmo assim não conseguimos! Temos pesadelos, insônia, o cachorro pula na gente no meio da noite, acordamos antes da hora. Também, quem consegue relaxar pensando se vai ter ou não dinheiro para pagar o colchão?

Além disso, não temos mais riacho. A água tem que ser mineral. De preferência São Lourenço (que, pelo preço, deve ser de fato feita com as lágrimas dos santos). Não sei o que aconteceu, o que sei é que, do nada, a água do riacho, que sustentou tantos Geraldos anteriores aos Geraldos atuais, passou a ser mortal… maldita Samarco…

E as goiabas que tanto tempo sustentaram nossos antepassados? Sumiram. Os Geraldos comeram todas? Claro que não. Essa merda que vivemos não é culpa deles. É culpa nossa as goiabeiras terem sumido. Olhe pela sua janela. Você vê goiabeira? Não. Passamos asfalto em tudo. Não tem mais espaço para as goiabeiras. Na cidade, é asfalto ou nada (e o nada é asfaltado). E asfalto para quê? A resposta é simples: para você ir trabalhar de carro o mais rápido possível. Mas, por que trabalhar? Porque precisamos de dinheiro, para comprar goiaba…

Assim, enquanto gerações de Geraldos viveram a vida inteira sem qualquer dinheiro, nós mal começamos levantar sem ter prejuízo. E olha que eu estou supondo que você não tem cachorro! Poxa, com o tanto que o Apolo come, é como se ele tivesse uma espécie de taxímetro no peito: a cada minuto, o dinheiro vai gastando. E tem bandeira diferente! Por exemplo, se eu completo o pratinho de ração dele de manhã cedo, o preço é da bandeira 1: ele fica do lado da comida o dia inteiro e não come nada, esperando eu chegar da escola. Se eu esqueço de encher o pratinho dele, a bandeira é a 2: ele come toda a comida que já estava no pratinho, come o pratinho da ração, roí uma cadeira, mastiga um sapato e, se eu tiver azar, sobe na mesa e fica uivando, por estar com medo de ficar sobre a mesa.

É pressão demais. A humanidade criou um mundo em que tudo tem que ter seu valor. E não há tempo para nada! Se você não está ganhando dinheiro nem gastando ele, o tempo seu “foi perdido”. Não é à toa as gerações de Geraldos foram reconhecidos por povoar a terra em abundância, enquanto nossa geração é conhecida pela alta taxa de lucro do Boston Medical Group.

Se continuarmos neste caminho, um dia pegaremos um jornal de vinte cinco centavos (que custa cinquenta centavos) e estará escrito na primeira capa: “Homem é detido por tirar soneca depois do almoço”.

E, neste dia, eu serei um criminoso, pois jamais deixarei morrer o Geraldo dentro de mim.