Tenho eu? – parte 1

E eu tenho culpa? É isso que eu pergunto. Desde que há humanidade, a culpa está por aí. Caim tinha culpa? Talvez tivesse, mas será que a culpa não seria de Adão? Foi ele que comeu do fruto proibido, fruto que foi dado de Caim para Deus que não o aceitou. Foi Deus, então, culpado da morte de Abel? Ora, tantas plantas, tantas coisas neste mundo, por que tinha ele que testar Adão no meio do nada? Não poderia ter tudo ficado lá? Como estava? Seria muito aceitar a oferta de Caim, se alegrado com suas frutas? Que diferença tem na fruta que Adão comeu para a fruta que Caim deu para Deus? Não se esqueça que, no começo de tudo, Deus negou comer as frutas de Caim. Se tivesse comido, Abel ainda estaria vivo.  Abel morreu pela ingratidão de Deus. Se ele não tivesse morrido, de quem seria a culpa? Por que há a culpa?

Não se esqueça que tem muitas coisas neste mundo. Quando resumimos a morte, o sangue, o vômito pós-festa, a urina na beirada do muro, o cheiro do ranço de um corpo apodrecido dentro de um carro, uma mulher agredida, quando resumimos tudo a uma culpa, esquecemos que há culpas. Todos temos culpa. E eu lhe pergunto: tenho eu culpa? Culpa por algo que não deveria ter sido comido, que levou a humanidade ao exílio e um homem que ofereceu frutas e hortaliças a um Deus? Tenho culpa que ele não as escolheu? Que culpa tenho de tudo isso, se sou só fruto disso?

Não me leve a mal, mas homens habitavam na terra antes de Deus. E os demônios vieram antes de todos. Estavam aqui, antes de todos. Deus estava e está inerte. Não os demônios. Eles nós vemos em cada jornal, nas notícias, que mostram a esquina da nossa casa. Via eles quase todo dia no trabalho. Eles agem sim, enquanto Deus se omite. Não me engano, Deus não nos viu. Ele não estava aqui na criação, não está agora. Quando vem, recusa nossas ofertas. A culpa era de Caim por ter Deus escolhido Abel? Me responda! Não, Deus não aparece na terra. Não mais. Não mais. Não o vemos no jornal. Não é por não existir. É por ele ter se esquecido. Ele simplesmente esqueceu. Era melhor que não tivesse existido.

Mas os demônios não se esqueceram. Eles só aproveitaram o esquecimento. Eles vieram aqui. Tiveram filhos aqui. Onde estão? Não sei. Talvez o dilúvio tenha afogado eles. Nem todos, claro. Demônios não esquecem. Não. Salvaram alguns, certamente. Eles lembram de tudo. De tudo. E eles agem em tudo. Do corpo largado no chão, que caiu da janela, a mulher que você agrediu. Lá estavam eles. Te olhando. Te moldando. Te fazendo.

Já fui casado. Antes de ser preso, claro. Era uma boa mulher. Acho que era. Não me lembro direito. Foi culpa dela? Acho que não. Também não foi minha. Foi só um dia. Uma noite. Uma noite que todos poderiam ter, não só eu. Tinha algo estranho acontecendo naquele dia. Lembro dela cuspindo vermelho na pia. Eu não sabia o que fazer. Polícia não tem chance de errar. Se ela chamasse a Polícia Militar, eu seria preso, minha carreira estava arruinada. Eu tinha culpa de a empurrar? Ela tentou me segurar, pegou meu braço. Podia ter cortado a cabeça dela. Não cortei. Apenas empurrei.

Não fui eu que empurrei. Ela nem deu queixa. Não acionou a polícia. Este caso nunca existiu. Lembro dela cuspindo vermelho, na pia. Era sangue. Na verdade, eu nem era casado. Foi só uma falta de Deus. Ele se esqueceu de mim naquele dia. Não os demônios. Não mais.

Sai naquela mesma hora. Coloquei minha arma na cintura. Tinha medo que ela chamasse a polícia. Não pode ser preso quando se é polícia. A vida acaba. Você aparece no jornal, na televisão. É uma reportagem contra você. Mas a culpa é sua? Ou de Deus que não estava lembrando de você? Ou do demônio que tinha te moldado para aquilo?

Era umas três, talvez quatro horas da manhã, rua escura. Meu turno começava às oito e meia. Se eu fosse do plantão, começaria mais cedo. Nunca trabalhei numa equipe de plantão. Eles trabalhavam às sete horas. Não podia chegar lá tão cedo. Iam desconfiar que tinha algo errado. Ninguém chega na delegacia às quatro horas. Se chegasse, iam perceber que ainda estava embriagado, com um pouco de sangue na camisa.  Não sei mais se a empurrei. Talvez a tenha agredido com um soco. Ou a sufocado. Mas ela estava bem quando saí de lá. Tenho sorte que ela não chamou a polícia. Talvez, naquele dia, Deus tivesse olhado para mim. Acho que não. Se olhou, não olhou o dia inteiro. Não mais.

Dormi no carro. Acordei com o calor dentro dele. Não tinha me precavido. Não parei debaixo de uma árvore ou algo assim. Parei no meio de um quarteirão, não longe da minha casa. Entre a casa e a delegacia. Não era longe de nenhuma das duas. Estava muito quente naquele dia. Muito. Era quase a virada do horário de verão, então o dia começava muito cedo e acabava muito cedo também. Isso é estranho.

Não tem mais horário de verão. O que sei é que estava quente e acordei suando. Sai do carro, por um minuto, sem minha carteira de polícia. Eu estava com a arma. Talvez era melhor voltar. Seria bom voltar, ver como ela estava. Não que fosse minha culpa, não era. Essas coisas acontecem, desde que os homens chegaram na terra e foram esquecidos. Não voltaria hoje, não voltaria mais.

Nem era casado. Só tinha que começar de novo. Não sei se Deus me castigou por não ser casado. Sei que ele não se agradava destas coisas. Se Ele não se lembra de nós, por que vai se lembrar de nos julgar por uma coisa assim?  Sai do carro e parei em uma padaria que tinha TV. Tomei meu café vendo o jornal mineiro. Não apareci nele. Por que ia aparecer? Ela não chamou a polícia. Não tinha motivo para isso. Esperei até 8 horas e 30 minutos, ainda na mesma padaria, na mesma posição, vendo a TV. Não apareci nela. Hora de trabalhar.

Fui com a mesma roupa. No banheiro da delegacia, deixava pasta de dente e desodorante. Mas nem me limpei. Acho que não lembrei de limpar. Acho que nem água no rosto joguei. Só sentei no meu computador. Como nunca e ao mesmo tempo como sempre. Tinha ocorrido três homicídios naquele mês, no bairro que eu e meu companheiro éramos responsáveis. É o que lhe disse, os demônios não esquecem. Eles nunca pararam. E deixaram seus filhos aqui.

Todo dia eu via eles. Eu via o que eles faziam. Mortes, histórias, laudos, fotos, corpos virando nomes. Nem eram os corpos que me espantavam. Eram os nomes. Os nomes em páginas em branco, em páginas que eu escrevia. Um pai, quando dá um nome, coloca um sonho junto. Sonho de ser um jogador, um vendedor, um médico, um mecânico. Nenhum pai, que coloca um nome, pensa que um dia aquele nome apareceria num inquérito de homicídios. Não. Nenhum pai imagina que o nome que colocou no seu coração, antes de botar em uma certidão, estaria num obituário de delegacia. Era eu que colocava aquele nome. Eu, sempre eu que colocava. O pai colocava o nome com um sonho. Eu colocava o nome, encerrando o sonho.

E a culpa era minha? Por que Deus tinha esquecido do mundo? Eu apenas colocava nomes que eram passados nas páginas em branco que recebia. Não os tinha matado. Não era minha culpa que eles estavam lá! Então por que deveria pagar por tê-los escrito? Eram só nomes. Nomes que resumiam toda uma existência e, por serem escritor por mim, resumiam também o fim daquela existência.   

Lembro bem do nome da minha esposa. Era linda, tinha um belo sorriso. Jamais escreveria seu nome em um de meus inquéritos. Tem gente que merece viver. Não são muitos. Naquele dia, que briguei com ela, que a empurrei, que não a feri, mas, mesmo assim, a vi cuspindo vermelho na pia, naquele dia, alguém tinha morrido.

Tenho certeza que os vizinhos ouviram. Um homem de oitenta quilos não cai de três andares sem acordar os vizinhos. Não. Eles ouviram, tinha certeza. O barracão era do lado. Eles só não se importaram. Talvez nem lembrem mais dele. Eu lembro. Era minha área. Antes das 9 horas, já estava na viatura, indo para lá. Só chamaram quando o dia amanheceu. Só chamaram depois que uma criança, que matava aula, o viu no chão. Só chamaram porque a criança gritou. Se não tivesse gritado, não teriam chamado. Não. Era só mais um na humanidade que seria esquecido.

A PM já estava lá quando cheguei com Ari, meu companheiro de equipe. Era um bom moço. Não era casado. Não. Talvez Ari nunca tenha agredido sua mulher. Se tivesse casado, não a teria agredido. Eu também nunca casei. Acho que aquele corpo também não. Na minha profissão, só vira homem – e deixa de ser corpo – quando escrevo seu nome em uma página em branco. Antes de ter um nome, é só um corpo. Um número. Alguns chamam de Desconhecido 4.508 ou Desconhecido 6.132. Eu não. Se não tem nome, é corpo. Não é homem. Não mais. Se não tem nome, não tem história, não tem passado. Se tem nome, encerro seu futuro quando o escrevo.

O corpo estava retorcido. A cabeça não estava esmagada, mas amaçada. Era como se estivesse murcha de um lado. Quando se cai de três andares, direto com a cabeça no chão, você percebe que seu corpo é só uma bola murcha. Tinha um pouco de cérebro no concreto onde bateu a cabeça. Alguns preferem dizer material encefálico. Tinha algo de repugnante ali. Uma queda de três andares não era suficiente para esmagar parte da cabeça assim. Era estranho. O corpo estava retorcido.

A cabeça para um lado, com a parte amaçada para baixo. O tronco, em decúbito ventral. Não sei se você sabe, mas é assim que falamos que ele estava com o umbigo no chão. As pernas, pareciam que iam para o outro lado. Davam um giro de quase 180 graus. Estavam dobradas. Como se quisessem ficar de pé novamente. Como se aquele corpo, após caído, quisesse se levantar. Mas não todo o corpo. Como se a perna quisesse se levantar, enquanto o corpo, de cabeça murcha, morria no chão.

O que assombroso tinha feito aquele ser para morrer assim? O que de bizarro tinha acontecido ali? Algo que jamais poderemos saber. Os instantes antes da morte nunca serão sabidos. Nunca. Mesmo se você estava lá, você não saberá o que aconteceu. Mesmo que eu tente colocar tudo em páginas em branco, nos mínimos detalhes, não será novamente aquele momento. A morte tem algo de sombrio. Algo que remete ao esquecimento de Deus. Aquele dia, quando briguei com minha esposa, percebi que Deus tinha se esquecido da gente. Quando eu morrer, vou perceber que ele não tinha se esquecido de mim naquela madrugada. Quando morrer, vou entender que ele nunca se lembrou da gente.

Você tinha que ver aquele rosto. O rosto do corpo. Ainda lembro dele. Olhos abertos. Do lado amaçado, estava um olho jogado para fora da cabeça, uns três ou quatro centímetros. A perícia ainda não tinha chegado no local. Os PMs ainda não tinham tocado nele. Quando chegaram, e sempre chegam, mas nunca antes, preferiram nada fazer. Só cercaram o local para a perícia. Tinham que cercar, pois as outras pessoas, que ainda tem nome, sempre tentam ver o que está acontecendo. Todos passarão um dia por isso, mas, enquanto não passam, se realizam vendo os corpos passando sem eles.

Ari andava pela cena do crime. Aliás, não parecia crime. A própria PM tinha informado que ele havia pulado do terceiro andar. Enquanto caia, na cabeça ainda tinha todos os olhos. A casa era toda daquele corpo quando ainda tinha os dois olhos dentro da cabeça. Casa de três andares não são raras na favela. Não cabem e quando se quer crescer, cresce para cima. Aquele corpo sabia bem disso. No meio da favela, era fácil achar um nome, para deixar de ser corpo. Ele caiu entre sua casa e um barracão. A cabeça murcha, com um olho de fora, o outro arregalado, estava perto do barracão, enquanto as pernas que tentavam se levantar estavam para o lado da casa de três andares.

Ninguém tinha visto antes do menino que matou aula. Aquele menino ia fumar maconha, por isso ia para aquele beco. Hoje ele não fumaria. Hoje, ele encontrava o corpo. Menos de um ano depois, era vez de encontrarem o dele. Fiquei sabendo. Ainda recebo visitas. Cada vez mais escassas, mas ainda recebo. Daqui a pouco, vou ser completamente esquecido.

Ari empurrou a porta da casa. Tinha algo enfadonho naquele corpo. Não podia ter simplesmente pulado. Ele estava embaixo da janela do terceiro andar. No entanto, ninguém suicida tentando correr, com as pernas dobradas.

Ari e eu entramos com as armas em punho, olhamos cada canto de um cômodo apertado, com uma cozinha ao fundo, um fogão e uma geladeira  em frente a uma mesa. Tinha um banheiro, que dava para a própria cozinha. Não tinha janela naquele andar. Tinha marca de janela, mas a parecia soterrada. Provavelmente o beco era usado por mais usuários de maconha além daquele aluno. Fizemos vistoria rápida. Ninguém no primeiro andar.

 Segundo andar parecia menor, como se a casa se afunilasse. Quanto mais perto do céu, mais incômodo sempre é. O homem tenta fazer coisas que são destinadas a Deus, mas nem Ele faz. Não lembro muito mais o que tinha naquele andar. Tinha alguns móveis, talvez. Tinha um cheiro. Do cheiro eu lembro. Um cheiro de pobre, um cheiro de torto, um cheiro de morte. Não me ache um mal investigador por não lembrar. Já fui um dos melhores. 13 anos na homicídios. Havia coisas para lembrar, muitas. Lembro de todas elas. Sempre lembro. Você se esquece do que fez ontem no seu trabalho? Se esquece do que fez semana passada? O que comeu com sua mulher, antes dela cuspir sangue na pia? Se eu esqueço, é mais um corpo que nunca se tornará nome. A mim não foi dado a dádiva de esquecer.

Fomos para o terceiro andar. Dava para ver que a casa não era planejada. Nada era. Ninguém planeja seu olho saltando da órbita, a boca aberta com a língua de fora. Você não viu ele. Eu vi. Só morreu na minha área. Com a lingua saindo da boca. Ainda não estava inchada, mas, com o maxilar quebrado, com alguns dentes cortando a bochecha e se expondo em direção ao pescoço, com aquele calor, era de se esperar que, em algumas horas, ela ficaria como um balão roxo, até não caber mais no rosto e estourar o resto de osso que segurava o maxilar.

E aí eu pergunto: tenho eu culpa de ter visto isto?

… (fim da parte 1 de 3)