Tenho eu? – parte 2

Talvez você não entenda a gravidade do que aconteceu naquela noite. Nem o Ari entenderia. Quando você bate em alguém que ama, você nunca mais é o mesmo. Eu agredi minha mulher naquela noite, na mesma noite que o corpo caiu do terceiro andar. Ela nem era minha mulher, mas estávamos junto a tanto tempo. Morávamos junto. Claro que tínhamos problemas. Estas coisas que vão evoluindo. Na época, eu bebia muito. Ela ajudava. Sempre que parava de beber, ela aparecia com alguma festa, com algum licor especial, amigas bebendo na minha casa. Por quê? Não sei! Era como se ela nunca deixasse eu sair. Quando se bate na pessoa que você ama, você morre um pouco. No fundo, é bom beber, para ajudar o corpo a continuar se arrastando, mesmo quando vê sua esposa cuspindo sangue na pia do banheiro.

Caim, quando matou Abel, errou uma vez. Eu errei várias. Mas ela errou junto. Já me deu de presente um licor no aniversário. E aí? Tenho eu culpa por voltar a beber? Não sei o que passava na cabeça dela. A última vez que conversamos sobre isso faz anos. E eu voltava, e perdi a noção de dia e noite, de vida e de simplesmente se arrastar. Na primeira semana era bom, nas outras a confusão começava. Ela não me acompanhava depois de alguns dias. E dias, digo dias e noites, pois já fui bêbado trabalhar. Um homem com arma é perigoso, imagina um homem bêbado com arma? E ela aparecia no boteco, queria me chamar. Chamar para a realidade. E eu lá, sentado, olhando para o nada. Naquele instante, quando se bebe, quando se é alcoólatra, quando volta a beber depois de ter ganhado uma garrafa de licor, mesmo sabendo que se é alcoólatra, independente de ter ou não agredido sua mulher naquela noite, quando se bebe, o nada é a sua realidade.

Eu sempre estava bêbado. Não é tão feio errar bêbado. Acho até que era um dos motivos de beber. Poder culpar algo responsável pelos meus erros. Quando Caim escolheu as frutas para dar a Deus, estava sóbrio, e o mal veio sobre a humanidade, o mal da primeira condenação de homicídio, condenação que chegou até nós. Pois, se Adão comeu o fruto, nos condenando ao exílio, foi Caim que matou a carne, destruindo de vez a relação entre humanos. Caim não estava bêbado e foi condenado por tudo: por escolher hortaliças e matar seu irmão. Como as hortaliças levaram a isso tudo? Por que Deus recusou as hortaliças de Caim? Por que ainda nos recusa? Nóe, por outro lado, quando ficou bêbado, ficou nu. Ele não foi condenado. Mesmo bêbado, nu, não foi condenado. Um patriarca nu não mereceu ser condenado, pois estava bêbado. A condenação veio a Caim, que, sóbrio escolheu as hortaliças.

Quando bebemos, desejamos que a bebida carregue o fardo junto da gente. Mas não naquela noite. Na noite que agredi minha esposa, enquanto ela cuspia sangue na pia, me olhava sabendo que não tinha sido a bebida que tinha quebrado seus dentes. Tinha sido eu. Só eu. Eu escolhi as hortaliças enquanto estava sóbrio.

Não sei se aquele corpo deformado, com cabeça murcha, corpo rodado, estava bêbado. Não sei se você sabe, mas sempre que alguém morre, junto com o laudo de necropsia, vem o de alcoolemia e toxicológico. Eles falam se tinha álcool ou cocaína no sangue. Quase ninguém presta atenção nisto. Eu sempre observo. Sempre torço para que esteja bêbado ou drogado. Acho que isso pode facilitar a dor que é morrer. Não sei se aquele homem, com olho fora da órbita e maxilar quebrado, estava bêbado ou drogado. Nunca vi o laudo de necropsia dele. Nunca nem mexi neste meu último inquérito. Talvez não estivesse bêbado. Uma pena. Só sei que eu quero. Torço, apenas, para que eu poça viver para sair daqui, nem que seja para morrer embriagado.

Naquela manhã, quando chegamos no terceiro andar, subindo uma escada de latão, percebemos que algo estava errado naquela casa. Aquela casa de três andares no meio da favela, no beco que dava para outras casas de janela fechada com tijolo. Tinha algo errado. A casa fedia morte, mas não parecia com a morte. Ela estava arrumada. Arrumada de mais para ter tido uma morte.

Quando se morre, algo saí do curso. Todos nascem para morrer, mas, quando é seu dia, algo de anormal acontece. É crime matar? Não, é só a aplicação da lei da natureza. Mesmo assim, todo dia de morte é diferente. Você briga com seu pai, sua mãe não atende seu telefone, o bar que você bebe está fechado, você quebra dentes na pia. Algo que nunca aconteceu, acontece no dia de sua morte. Algo inesperado. É assim que o universo se arruma para o dia que você morre. O universo deixa que os demônios façam algo. Baguncem algo. Confundam algo, antes de você morrer. Ninguém morre no dia certo. Isso seria uma dádiva, que Deus esqueceu de nos dar. Entende?

Aquela casa não estava preparada para morte. Não lembro muito bem dos móveis, apenas um sofá antigo, com alguns furos, provavelmente comprado em um topa-tudo vindo de uma família rica, que nunca achou que iria morrer. Tinha também uma televisão, pequena, mas de tela plana. Uma mesa de canto, no encontro de duas paredes que já foram pintadas, mas que a infiltração as desnudou quase por completo. Do outro lado, para o beco, um lençol amarrado, tampando a janela aberta. Era isso, uma casa apertada de favela normal. E por perceber que ela era normal, foi que entendi que aquele corpo não tinha caído dali.

Quem já foi em muitas cenas do crime sabe. Mesmo que tivesse sido suicídio, mesmo que ele pulasse, algo fica errado no ambiente. O universo não tinha se preparado ali para matá-lo. Demônios deixam rastros.

Fizemos a varredura com nossas armas, mas, na hora que vimos a sala, já sabíamos que ninguém estava ali. Fui direto para a mesa de canto, que tinha uma gaveta, olhar os papeis – quem sabe uma arma? Não tinha. Ari era melhor do que eu. Um grande policial. Foi direto para a janela. Eu sabia que a prova mais importante estaria na janela, por isso não fui lá primeiro. Era melhor que Ari fosse. Talvez se Ari não fosse bom demais, voltaríamos aquele dia para nossa delegacia, escreveríamos nomes em páginas em branco, iríamos para casa, eu pediria perdão, nunca mais beberia e tudo seria normal novamente. Mas Ari era bom demais para ser normal. E tem coisas que, quando se quebram, nunca mais poderão ser reconstruídas.

Ele não pulou, foi a única coisa que Ari falou, enquanto olhava a janela. Como você sabe, perguntei, sem olhar para Ari, enquanto mexia em umas cartas que tinha encontrado. Ninguém pula levando pedaço da janela.

A mão daquele corpo é algo que ainda não contei para você, pois neguei até hoje que aquilo tinha acontecido. De todas as coisas abomináveis que vi em minha carreira, aquela tinha sido a maior. A mão segurava um pedaço de madeira. Vi na hora que encontrei aquele corpo. Sei que os PMs disseram que ele tinha caído. Não foi. A mão estava com pedaços de madeira, era visível de longe. Não só a mão direita, que fechava em torno da madeira, mas a pior era a esquerda. Os dedos tinham se fechado ao contrário. Como se as juntas tivessem virado 270 graus. Como se, no desespero, aquele homem, domado por uma força maior que lhe empurrava, tentasse fazer de tudo para se segurar. Até mesmo torcer seus dedos. Não foi ninguém que os quebrou daquele jeito. Foi ele, no medo da passagem, que tentara se segurar de qualquer jeito, mesmo que para isso tivesse que estourar todos os ossos e cartilagens de sua mão virada ao contrário. De todas as forças que conheço, o medo é a maior delas. Não é o medo de cair. É o medo de saber que não vai voltar.

A janela daquela casa apertada, aquela casa de três andares, que mais parecia um barracão amontoado, um sobre o outro, a janela daquela casa não estava quebrada. Não tinha nenhum pedaço da madeira do beiral arrancada. Ari era um homem bom. Ele não era casado, mas era competente. Já vi ele com uma menina, bonita, uma morena da homicídios mesmo, mas não casou. Independente disto, era um bom investigador, dos melhores. Ele sabia o que dizia. Talvez não soubesse ficar calado. Não sabia quando parar. Não sabia quando não mais perguntar. E só. Tínhamos que procurar de onde tinha caído.

Voltamos para o beco. O corpo estava no chão. Os dedos tortos, ainda segurando em pedaços da janela. Não adiantava mais. Tinha que ter segurado ontem. Hoje, podia soltar. Não vai. Segurar a janela é uma forma de manter o que restou do corpo aqui.

Passamos pelo lado dele. Ouvimos um barulho de viatura, a perícia, provavelmente. Não íamos esperar eles. Estávamos mais interessado nas janelas do beco. O beco não era grande. Só tinha aquela casa, que se voltava para as costas de outra casa, também grande, com as janelas fechadas por tijolos, para que o cheiro de maconha não subisse? Talvez sim. Mas acho que não era isso. As janelas eram fechadas para que os moradores daquela casa não testemunhassem o que acontecia naquele lugar. Não fico me perguntando o que aqueles vizinhos tiveram que ver para fechar suas janelas, mas o que eles não viram após fechá-las. Aquilo não era como agredir sua mulher, que cospe sangue pela boca enquanto você sai de casa, com repugnância do que fez. Ali, naquele beco, a repugnância não precisa se esconder, pois ninguém mais pode a ver.

Acho que é um local de execução, isso explica esses tijolos na janela, disse Ari, enquanto íamos para o fundo do beco. Mas ele morava aqui, vi os documentos dele na gaveta. Não se executa perto de sua casa. Perto da casa, fica fácil dos corpos ganharem nomes. Quando se executa, você simplesmente quer varrer tudo, a existência, a alma, o nome.

Não eram apenas as janelas fechadas que contavam histórias naquele beco. Tinha uma, mais uma. Apontei para Ari. Uma espécie de espaço quebrado no muro, no fim do beco. Não era em cima do corpo. Era de madeira entre os tijolos. Mas não era em cima do corpo. Ele não tinha caído da janela de sua casa. Ele tinha sido arremessado uns 4 ou 5 metros, antes de esmigalhar seu crânio no chão. Ele tinha sido jogado de uma espécie de janela, no fim do beco, no terceiro andar, que nada mais era que um pedaço de muro quebrado seguro por ripas de madeira.

Aquele espaço, entre muros, entre paredes, marcado com madeira, encostos de parede, para evitar que a rachadura se ampliasse, era de lá que ele tinha vindo, mas como tinha subido? O espaço parecia que era só para segurar a casa que um dia tombou por causa da chuva. O corpo tinha que ser levado para lá, antes de cair. Ninguém é levado para o terceiro andar sem querer. Ele tinha que estar com alguém conhecido, ou algo que conhecia bem, antes de cair. Uma pessoa não joga o corpo 4 ou 5 metros de distância do terceiro andar. Você entende o que te falo? Não podia ter sido uma pessoa. Não foi um assassinato naquele dia. Foi um sacrifício. Dessa vez, Caim não tinha ofertado hortaliças e frutas.

Comecei a chutar os entulhos que ficavam no fundo do beco. Lixo mesmo, ripas, materiais de construção que estavam acumulados ali. O corpo tinha que ter subido de alguma forma. Foi quando vi, atrás de uma janela de madeira encostada na parede, que tinha um espaço, um buraco. Não era um buraco grande, mas era um buraco. Passava um homem. Passava sangue. Na beirada deste buraco, tinha sangue. Seco, mas tinha. Não era meu. Ainda não tinha entrado. Era sangue de alguém que tinha entrado e esbarrado no buraco. Se machucado. Quem consegue reconhecer sangue seco na parede, além da gente da delegacia de homicídios? Dava para passar, sem machucar. O caminho do investigador  é onde o sangue vai. Sangue conta mais que a história de uma vida, de onde você veio. Conta, para a gente, como você terminou.

Joguei a janela de madeira para o lado e me enfiei no buraco, a arma em punho, Ari atrás de mim, os olhos fechando, tentando focar na luz, não era uma casa, era um buraco, entre uma casa de três andares e o fundo de outras casas. Não devia ter entrado ali. Devia ter caído do terceiro andar. Ninguém reclamaria se colocasse no papel que ele caiu do terceiro andar. Podia termos parado ali. Ari podia não ter ido atrás de mim.

Entramos numa espécie de cômodo no meio de tapumes, lixos e tábuas, que seguravam a casa. Como se tivessem separado uma parte da casa de três andares, fechado uma parede, colocado madeiras, ripas, segurando entre as paredes, que só podiam ser acessadas por aquele buraco, que me pariu espremido entre as paredes. Ari vinha atrás. Não tinha pintura, não tinha móveis. Só tinha eu e Ari. E reportagens. Muitas, todas coladas na parede.

Quando se está asfixiado, claustrofóbico, dentro de um cômodo apertado e sem luz, você não repara nas reportagens na parede. Você apenas espera que seu companheiro entre com você. Que ele esteja armado, com a arma apontando para o fundo do cômodo, ande sobe uma escada. Você apenas espera que nada apareça naquela escada. Se descer, você apenas espera que você consiga atirar primeiro. Não dava para olhar para as reportagens. O olho se foca no fundo. Na escada, apenas. E já é muita coisa para olhar.

Passamos entre ripas, pulamos algumas, atravessadas entre paredes, e passei por pelo menos uma abaixada. Meu olho, o tempo inteiro, para a escada. Era uma escada de pedreiro, dessas que você sobe degrau por degrau com a mão te guiando. Ela levava para um buraco, de onde vinha toda nossa luz. Fraca, mas nossa luz. Quando cheguei bem embaixo dela, arma apontada para cima, percebi o tanto que era enorme. A escada ia por dois andares, subindo ininterrupta. Não tinha como colocar aquela escada ali. Não tinha. Ela não passava no buraco. Naquele momento eu não entendia. Hoje entendo. Aquele cômodo, aquele muquifo, ou seja lá o que for aquilo, foi feito para aquela escada. O centro era ela. Quando fecharam as paredes e deixaram o buraco, enterraram a escada junto com o resto daqueles cômodos.

Não sei o que vi. Não sei, pode ter sido algo, ou não. Devia ter disparado. Não disparei. O vulto, que estava no topo da escada, não estava mais. Foi muito rápido, não estava mais. Era minha única fonte de luz e algo a tampou, naquela hora. Era algo, tinha que ter disparado, não disparei. Acho que Ari também viu.  Não tenho certeza, não lembro dele ter me dito algo assim. Acho que não. Eu não disse nada. Podia ser tudo, ao mesmo tempo que não podia ser nada. A única coisa que fiz, foi subir, dois pés no degrau enquanto uma mão segurava a arma.

Tinha o segundo andar. O vulto não vinha do segundo andar. O vulto estava no terceiro, mas não se chega ao terceiro sem passar pelo segundo. Eu tinha que ir para o segundo, sabia que tudo tinha acontecido no terceiro, mas, agora, eu tinha que ficar no segundo e fiquei. Desci da escada, arma em punho, olho cerrado, cheiro estranho, mofo, ripas pobres, cheiro de banheiro. Apontei minha arma para o escuro, para o cheiro. Cheiro de morte, de decomposição. Era o que dava. Algo tinha acontecido no segundo, eu só não via.

Ari passou direto, não desceu no segundo, estava subindo para o terceiro andar, enquanto eu apontava a arma para o nada escuro. Caminhei titubeante, entre ripas, quatro ou cinco passos na escuridão quase total, antes de acender a lanterna de meu celular. O cômodo se abria um pouco, como se abriu o de baixo, dando espaço para uma porta. Fechada. Chutei com força, o máximo que alguém consegue chutar quando se está com uma arma numa mão e o celular iluminando com o outro. Ela escancarou, com o barulho do impacto.

Era um banheiro. Pia branca, vaso branco, janela tampada por tijolo. E uma mulher. Caída, ajoelhada, com a boca estourada, dentes partidos, enfiados no meio da garganta, com a cabeça numa pia, como se o maxilar aberto, quebrado, se encaixasse na louça branca, de joelhos, com os braços para trás, cabeça tombada, dependurada, enquanto a pia branca se sujava com seu sangue escorrendo.

Tudo acontece um dia. Todos temos este dia. Este dia só reflete que acabou o caos. Só isso. É a paz de não mais existir. Sempre assim. Nunca se está preparado para quando ele vem. Mas ele vem. Devia ter chamado Ari naquele momento. Não chamei. Todos tem seu dia, não era minha culpa. Só escrevo nomes, não escolho eles quando nascem, só os procuro quando morrem. Nem sequer escolho como morrem. Que culpa eu tenho de ter escrito por treze anos como corpos morrem? Nunca escolhi como se dão os fatos. Apenas os escrevo. Se pudesse ter escolhido, não teria mudado a morte de nenhum deles. Nenhum. Escreveria tudo novamente. Mas, se pudesse, teria reescrito a morte da minha mulher.

Eu peguei a arma, a engatilhei e fui para a escada, mesmo com ânsia de vômito. Ari ainda estava no terceiro andar.