Tenho eu? – parte 3

Não me leve a mal. Eu era um investigador experiente naquele tempo. Jamais subiria com uma arma engatilhada em uma escada de pedreiro. Naquele dia, subi. Uma arma engatilhada dispara do nada. O gatilho de uma pistola é leve. Qualquer coisa que esbarra. Qualquer coisa. Qualquer pode causar tudo. É só um esbarrão e uma operação acabou, um local de crime virou outro, uma vida se foi. Eu não me importei com aquilo naquele dia.

Eu não tinha culpa de ter esquecido o que aprendi na academia de polícia. Tinha uma mulher, morta, com a cabeça dependurada pelo maxilar na pia. Ninguém sabia. Só eu. Ari não sabia. Não podia saber. Se soubesse, não poderia explicar para ele o que ela estava fazendo lá. Ari já sabia demais. Ele tinha que sair agora daquele lugar. Ou eu tinha que tirar ele.

No terceiro andar, a casa se iluminou. Não tinha janelas. Era o buraco na parede que iluminava. O olho ainda estava cerrado, buscando o máximo de luz entre as ripas, também estendidas, mas não precisava da luz do celular. Foquei um pouco, antes de achar Ari. Ele não me olhava, não olhava o vulto, não olhava nada. Ele apenas olhava para o chão.

Fui com a arma em punho, em direção a ele. Se me olhasse, se sacasse, se mexesse, eu atiraria. Mas não fez nada. A arma dele estava no coldre. Ari apenas olhava para o chão.

Fui para perto do buraco da parede, que iluminava a sala, rondando Ari, tentando ver o que ele percebia no chão. Me senti tonto, com o corpo suado, dedo no gatilho, tremendo. Treze anos de homicídio, como tinha percebido tudo aquilo só agora? Tenho culpa de não ter visto, de não ter entendido que a morte se encontra com outras mortes? Que nenhuma morte fica limpa, mas mancha de sangue a cidade em outras mortes? Me dei conta, naquele instante, da maldade do mundo, do que faz homens bons se calarem diante da imensidão, do motivo de tantas janelas estarem fechadas. O caos sombrio se desorganizava sob meus pés.

Abaixo de Ari, espalhado por todo o quarto, desenhado no chão, em uma espécie de tinta negra, no meio de ripas, iluminado pelo buraco mofado da parede, havia um mapa pintado. Um mapa do bairro. Do bairo. Eu sei. Trabalhei naquele bairro, era minha área e de Ari. Nossa, só nossa. Conhecia cada rua, cada esquina, cada beco, conhecia o mapa. Aquele bairro era nosso. Mais meu que de Ari. Ele era meu. Ari era só ia lá. Ari andava pelas ruas daquele mapa. Eu era parte do mapa.

Debaixo de nossos pés, o mapa tinha borrões de sangue. Não espalhados. Borrões localizados. Espalhados. Como se cada borrão marcasse um ponto não espalhado. Como se cada ponto do bairro sangrasse, se espalhando em outros borrões.

Aproximei com a arma em pulso, ainda. Não a guardei, como Ari. Na sua cabeça, quem sabe o que passava? Ele não tinha culpa de nenhuma daquelas mortes. Não tinha culpa do bairro pintado de sangue. Não tinha culpa do mapa, sob ripas, iluminadas por um buraco. A rua principal, esquina com a rua 32, morte de Eleonor. Cabeça decepada com cortes de garrafa de vidro quebrada. Agora, uma mancha de sangue no mapa do terceiro andar de uma casa sem janela. Beco da Flor, próximo do beco da Paz. Bar do Ratinho. Era o bar. Ratinho foi torturado antes de ser morto. Duas pernas quebradas. Uma mancha apenas. Rua Macledson, quatro garotos, boca de fumo, a maioria era, sempre era boca de fumo. Dezenove disparos. Um dos garotos morreu com apenas um tiro na perna. Morreu antes de conseguir dizer quem tinha atirado. O borrão de sangue também não dizia.  Nem os tantos outros naquele mapa.

Eram só mortes. Só mais nomes para escrevermos em folhas em branco na delegacia. Você não tem culpa de não ter percebido isso ainda, a falta de sentido. Você nunca viu uma tragédia, nunca esteve em uma. Eu vivi e revivi tragédias todos os dias. Todos, nos treze anos de homicídios e nos sete seguintes, vivendo aqui.

Você acha que tinha sentido matar Abel? Não. A vida não tem nenhum sentido, não se engane.  Desde o primeiro homicídio na humanidade, nunca teve sentido. Uma hortaliça, só isso, rejeitada por Deus, foi a causa de tudo. Uma hortaliça. O desprezo. O desprezo do ser divino. No fundo, nossa existência é só uma forma de desprezo de Deus. Levamos a vida fazendo nada, pulando de emprego em emprego, de corpos em corpos, de casos em casos, montes de processos na delegacia. No fundo, todos eles se resumem a mesma coisa. Nada. São só pilhas. Pilhas de processos, de nomes, de corpos, de vidas, de nada.

Você acha que tem lógica eu estar aqui? Trancado nisso tudo? Tenho culpa se mexia com o que ninguém queria mexer? Se eu revivia o que ninguém queria reviver? Tenho culpa se nascemos do nada? Tenho culpa se vivemos para o nada? Tenho de ter escrito nomes em páginas em branco na delegacia, deixando humanos de serem corpos? Tenho culpa se estes corpos viraram borrões de sangue em um mapa no terceiro andar de uma casa no fundo de um beco? A existência, os corpos, a vida, a morte, sem padrão. Quando morremos, familiares tentam ver sentido na nossa existência. Quando eu pular, não tente fazer isso.

Não foram forças divinas que me fizeram. Não foram elas que me orientaram. Não foram elas que levaram o Ari ao terceiro andar. Não foram elas que borraram de sangue aquele mapa no chão. Não foram elas que mataram Abel. As forças divinas apenas se ausentaram e deixaram que isso acontecesse. Ausência é apenas uma das faces do desprezo.

Não sei quantas manchas eram. Eram muitas. Me perdi em cada uma delas. Me perdi na lembrança de cada uma delas. Manchas deixam lembranças. Mais que corpos. Corpos são só deformidades, seres que não são mais. Manchas representam o que se foi na deformidade da morte.

Olhei para aquele mapa no chão, quanto tempo? Só parei, quando vi o vulto. Ari na janela. Janela não. No buraco. Estava no buraco. Eu lembro do buraco, feito de ripas e madeira, como se abrisse entre as casas. Onde um corpo caiu naquela noite. Caiu por cinco metros de distância daquele lugar. Pode um corpo cair cinco metros de distância? De cabeça? Com os olhos soltando da face e a língua inchando num dia quente no meio da favela? Aquele tinha caído. Ou algo tinha o arremessado.

Ari, cuidado. Ele estava tombado, se segurando pela borda, amaçando a borda. Ari, sai da porra desse buraco. Ari. Ele não me respondia. Não me olhava. O corpo tombado, segurando na madeira que contornava aquela enorme rachadura na parede. Porra, Ari, sai daí, caralho. Quando se está na homicídio, há treze anos, você saca a arma e aponta. Nem sei o motivo, mas não apontei. Vai cair, Ari! Seus dedos se cravaram na madeira, feriram ela, racharam ela. Ari não me olhava. Olhava lá para baixo. Um pedaço da janela se soltou, na mão a esmigalhando. Porra, Ari!  

Apertei o gatilho. Um profissional como eu não deveria ter apertado. Nunca tinha apertado antes. Nunca precisou. Não precisava naquele dia. Não foi um tiro de aviso. Não foi no Ari. Jamais atiraria nele. Só apertei o gatilho. Não sei se foi para assustá-lo. Não. Disparei para baixo, com a arma rente a perna. Ato reflexo. Não espere estar com a cabeça boa enquanto seu colega, em silêncio, se debruça numa janela no mesmo dia que saiu de casa com sua mulher cuspindo sangue na pia. O projétil pegou no meu pé direito. Não sei nem se senti dor. Raspou também minha perna. Essas coisas entram queimando. Anestesia. Cai imediatamente, mão no sapato furado, instintivo, segurando o sangue, que borrava a sala, que borrava meu pé, que borrava o mapa. Ari tinha que fazer algo. Ele tinha que voltar. Já tínhamos corpos demais naquele dia. Já tínhamos sangue demais naquele dia. O mapa já estava borrado demais. Ari não fez. Não parou para me ajudar. Nem sequer me olhou. Ele apenas pulou.

Ouvi o barulho no chão. Não teve grito, nem choro. Ari era um bom policial. Merecia choro, do lado de sua cama, velho, segurando a mão de sua esposa. Não teve. Só o espanto. Ele caiu, se jogou, não sei. Tinha algo ali. Dois corpos no mesmo beco. Beco que nada via, por causa das janelas fechadas. Meu mal era não ter tido testemunha. Se aqueles becos me vissem, tivessem visto aquele instante, que Ari se jogou, não estaria hoje aqui. Fecharam as janelas do beco para não ver o mal que lhes rodeava. Mas o mal não deixou de existir por causa disso.

Esse é o horror do fim, o horror da escuridão. Já tinha visto muitos casos para entender que aquele também era o meu caso. Não se para no meio do nada. Tem que acabar. Acabaria comigo caindo. O horror do fim seria meu alivio. Arrastei, com o pé jorrando em sangue, para o buraco na parede. Para o nada. Nada tinha sentido ali. Minha mulher sangrando na pia, uma noite sem bebida, justo aquela noite, um corpo torto, uma mulher na pia, Ari no chão. Nada. Seriam tudo borrões num mapa. Era minha vez de ser borrão.

Tinha coisa demais para colocar no papel em branco jogado sobre uma pilha no meio de uma delegacia. Era melhor eu ser colocado no papel. Como eu explicaria que agredi minha mulher em casa naquela noite, por uma briga? Como explicar que ela não chamou a PM? Como eu explicaria que fui na padaria sem minha carteira de polícia? Como explicaria uma cabeça murcha, com dentes cortando a bochecha, com o olho fora da órbita,  com as mãos contorcidas ao contrário, tinha sido minha informante por tantos anos, antes de ser encontrado em um beco sem testemunhas, de janelas fechadas? Como explicaria cartas escritas a punho com minha letra em sua casa? Como explicaria as reportagens de homicídio na região, que estavam no primeiro andar de uma casa sem porta, sem janelas, sustentada por ripas no fundo de um beco? Como explicaria manchas de homicídio em um mapa, no meio da favela, no terceiro andar? Como explicaria Ari se jogando? Um bom homem, se jogando do nada? Como explicaria que a única pessoa que amei em vida, que sonhei em casar, que não aceitou, porque eu bebia, a única pessoa que me fez ver Deus na terra, morreu segurando minha carteira de polícia em um banheiro do segundo andar de uma casa, de um beco sem janela, sem testemunhas, enquanto cuspia sangue em uma pia? Como explicaria que eu não estava bêbado naquele dia?

Eu jamais explicaria. Nem ali, nem na audiência, nem no júri. Jamais consegui explicar.  Arrastei como pude. Como pode, quando se toma um tiro, se puxa.  Arrastei, espalhando sangue, com a arma na mão. Vivi treze anos com ela. Ela me levou até ali. Eu cairia com ela dali. Faria parte do meu borrão. Estaria nas minhas páginas. A arma, que só deu um tiro, em mim mesmo. Ouvi os PMs subindo a escada. Puxei uma ripa, tentei ficar em pé, não consegui. Tinha que me segurar, para me levantar. Tinha que alcançar. Não podia me explicar. Tinha que cair. Coloquei toda força nos meus braços, me colocando de joelho. O sangue jorrava muito. Estava tonto. Eles estavam já no segundo andar. Falavam algo, não sei. Passei a primeira mão, já com os olhos escurecendo, dor, falta de sangue, não sei. Tentei me debruçar sobre o buraco, no espaço agarrado do buraco, me impulsionei e tomei o primeiro tiro. Nas costas.

A partir dessa hora não lembro muita coisa. Esqueci. Tomei quatro tiros naquele dia. Três dos PMs, na lateral direita e dois nas costas. Um outro, no pé, raspando pela perna, estourando veias cruciais para a existência humana, este do pé, a balística constatou que saiu da arma de Ari. Não era para ter sido assim. Era para ter caído. Eu. Ari não deveria ter caído. Eu não precisava saber dos tiros. Não queria. Acordei no hospital, algumas semanas depois. Não consegui falar nada. Explicar nada. Meu informante, meu companheiro de equipe, minha esposa. Não tinha motivo para matar nenhum deles. E tenho culpa disso?

Alguém pediu os motivos de Deus ter recusado a oferta de Caim? Ele conseguia nos dar? Ele não gostava de hortaliças, eu me pergunto. Caim tinha culpa de tê-las escolhido? Não ache que isso é um plano divino, que ele não aceitou a merda de um alface para nos ensinar algo, algum valor moral. Não. Não é. Nunca foi. Era só a porra de um alface. Só somos fruto do seu esquecimento. Se você ainda não entendeu isso, não devia ter vindo aqui.  

E eu tenho culpa? É isso que me pergunto. Tenho culpa, que no fundo, todos somos parte do mesmo esquecimento? Abel não sofreu com a morte. Ele se libertou. Caim foi o verdadeiro condenado naquele dia. No final, e seu final virá, e o meu virá, no final, o horror continuará o mesmo, o mesmo que Caim sentiu durante todos os anos que seguiram sua existência: o horror de se saber eterno errante, caminhante perdido em um beco, em um imóvel, sem janelas, pois nem Deus quer ser testemunha de nossa execução. Apenas corpos esperando o dia em que estaremos em páginas em branco em uma pilha de uma delegacia.