E se for do Marquito?

Não adianta negar, há uma boa vontade intrínseca na humanidade quando se vê um pai com um filho no colo. Eu não sei muito bem o que acontece. Sempre que me veem num supermercado, livraria ou shopping, o mundo vira outro, vira um lugar de esperança, paz, saúde, com produtos da Shein não taxados.

É como se, naquele momento, todos os personagens deste local mágico apertassem as mãos e olhassem para mim falando:

_ Vejam! É o Homem de Deus, que carrega a esperança do mundo!

É incrível…

Uma pena que é só com o homem.

Estranho, né? Com mãe não é a mesma coisa. É como se o pai carregasse em si a virtude, e a mãe, por outro lado, carregasse 8kg de um dever:

_ Vejam! Eis a Mulher do Mundo, que leva as consequências do coito… E ainda quer furar fila?

E por quê? Sério, por quê?

Também não sei. Talvez pela eterna complacência com o homem, que é visto como alguém altamente vulnerável diante das adversidades da vida que não envolvam ele ser um idiota:

_ Aí, meu deus, que gracinha, homenzinho lindo. Ele sabe trocar fralda do bebê, tchutchutchu.

Além disso, da nossa completa incompetência, sempre tem a crença pré-estabelecida de que homem, ao estar com um bebê, por si só realiza um ato de bondade:

_ Cadê a mãe desse menino? Deixou com o pai? Que vagabunda…

E, por fim, a sensação humanitária que envolve o genitor:

_ Gente, o pai com um bebê. Meu deus. Vou dar uma ajuda, porque, se bobear, nem é dele.

Não os culpo por essa dúvida, crescemos em uma geração que via teste de DNA no Programa do Ratinho. Nós sabemos que o filho pode ser seu, de ninguém, de todo mundo e, se bobear, até do Marquito.

Confesso que, no começo, eu achava meio estranho, até errado. Eu era capaz de fazer tudo, não precisava de ninguém me ajudando, afinal, eu estava lá na hora de fazer, não estaria depois que saiu de lá?

Só que eu percebi que era voz vencida. Ninguém que se oferecesse para fazer algo com um pai quer ouvir um:

_ Pode deixar, eu consigo.

Não. Lógico que não. Eles ficavam mais felizes ao me ouvir dizendo:

_ Que bom que você apareceu, nem imagina como eu sou incompetente com esse menino que pode nem ser meu… inclusive, já percebeu que a mãe nem está aqui? Promíscua…

É melhor deixar para lá. Assim, eu comecei a aceitar tudo, como se fosse uma dádiva do universo.  

É claro que tem vez que eu me incomodo. Outro dia, uma senhora começou a abrir minhas sacolas no supermercado para colocar a compra. Eu olhei para ela e tive vontade de dizer:

_ Tem certeza que não prefere gastar o resto do seu tempo com outras coisas?

Um cara, semana passada, parou o carro para eu atravessar. O carro. Para atravessar. Eu… Ir para o outro lado da rua… Parou. Você entendeu? Um homem parou para um homem atravessar. Isso não é normal. Não é. E eu sei que ele só parou por causa do meu filho, no entanto, mesmo assim, eu me senti uma baita mulher gostosa.

Se a rua fosse um pouco maior, eu tinha rebolado.

Enfim, enquanto o mundo não se acostuma, continuaremos com superpais que fazem apenas suas obrigações… E as mães? Elas? As mães? Você está se perguntando:

_ E as mães, Lucas? E elas?

Bem, boa pergunta. Não sei… ainda acho que continuarão um tempo sendo invisíveis ao fazerem mais do que suas obrigações.