Não me levem a mal, mas vocês estão esperando muito de mim e da Bárbara. Outro dia estava vendo um vídeo no Youtube sobre criação de crianças e como diagnosticar se seu bebê de três meses, isso, três meses, está atrasado. Três meses?
Nos primeiros trinta dias, em tese, o menino precisa de uma adaptação ao mundo. Faz sentido. A Bárbara comprou um carro automático, no entanto, ela não sabia dirigir. Então andei com ele quase uns sessenta dias, até que ela finalmente tomasse coragem de pilotar (e trombar por aí).
No mês seguinte, eu tive que reaprender a andar com um carro de marcha: errei controle de embreagem, passei a terceira na curva, engatei a primeira ao invés da ré e até hoje tenho uma vertebra deslocada do tanto de vezes que desliguei o carro com a marcha engatada. A Bárbara, por sua vez, quase que teve de aprender a sair rolando de dentro de veículos em chamas.
Ela bateu o carro na Cristiano Machado (para quem não é de BH, fodas, não vou explicar o que é a Cristiano Machado, você que está errado de não ser de BH); atropelou um canteiro, pois ficou na dúvida se devia ir para direita ou esquerda (aí adotou o centrão), e trombou 2 vezes, na mesma semana, no portão aqui de casa.
Ou seja, se um mês depois eu não estava pronto para voltar para o carro de marcha e a Bárbara não estava pronta para continuar viva dirigindo um carro, por que o Gabriel estaria pronto para o mundo? Claro que ele não estaria.
Mesmo assim, a coaching virtual da criação me passou uma lista de tarefas: eu deveria dar muito colo, contato com a pele, evitar estímulos visuais fortes (sim, não podemos levar o bebê para micaretas) e fazer uns 3 minutos tummy time (você coloca o menino de bruço e vê ele tentando empurrar o planeta enquanto sustenta o cabeção).
No segundo mês, de acordo com esse mesmo vídeo, eu deveria ajudá-lo a entender o mundo. Sério? O mundo? Este mesmo, que em uma eleição coloca o Bolsonaro e na outra o Lula? Que o Michal Jackson virou branco e o Trump alaranjado? O mesmo mundo que a Virginia largou o Zé Filipe para pegar o Vini Júnior? Dá para entender esse troço?
Para essa compreensão, segundo a especialista, eu deveria mostrar objetos de contraste, mover brinquedos lentamente, sorrir de forma falsa para ele ver se imita e, mais uma vez, fazer tummy time.
Agora, no terceiro mês, teoricamente eu e a Bárbara deveríamos ensinar para ele controle emocional e coordenação. Sério? Você leu o parágrafo que eu falei que a Bárbara trombou no mesmo portão duas vezes na mesma semana?
Para isso, o ideal era dar brinquedos macios, conversar mais com ele, imitar sons, incentivar respostas vocais e (adivinhe?) tummy time.
Ao fim desses três meses, segundo a teoria dessa mulher que não sei quem é, mas tem dois milhões de seguidores, devendo então ser considerada a Virginia dos bebês, uma criança deveria reconhecer rostos familiares, diferenciar voz, seguir objetos e ter vontade de se matar se mais uma vez você obrigá-lo a fazer tummy time.
E o Gabriel, faz isso?
Eu acho que sim. Só tenho dúvida se ele consegue distinguir meu rosto ou da Bárbara, mas, certamente, ele reconhece qual peito é o dela.
Então o Gabriel está atrasado?
Ele tem 3 meses. Eu já vi ofícios mais demorados que esse para serem respondidos.
E no fim do vídeo, a Virgínia dos bebês, que tudo indica não sabe a diferença entre um bebê e um anão, já que espera coisas demais deles, concluiu que, se os pais não fizessem isso, certamente haveria um atraso na vida intelectual de seus filhos.
Sério? Ainda faltam 18 anos para o Gabriel fazer o Enem (se ele não engravidar ninguém antes, claro), e são esses três meses que realmente vão ditar o resto dessa vida? E a responsabilidade é minha? Um cara que tem dúvida como passa marcha? E da Bárbara? Uma mulher que, na mão de um grupo radical religioso, seria uma arma de destruição em massa motora? É sério? Nós vamos responder se o Gabriel vai ser lerdo ou não no futuro? Eu acho que tanto eu quanto a Bárbara jamais conseguiríamos três minutos de tummy time, que dirá preparar alguém para o mundo.
Na boa, não estou reclamando das boas intenções dos coachs infantis, mas a paternidade já tem cobranças excessivas. Se possível, deixem meu menino ir com calma. Ele vai ter o resto da vida pra entregar tudo o que o mundo exigir dentro do prazo — mas, pra se atrasar, talvez essa seja uma das poucas oportunidades que ele terá.

