DERROCADA DE ERBEROS – parte 2

Era o escurecer do outro dia quando, em meio aos relâmpagos, as primeiras lamúrias chegaram aos ouvidos das linhas de frente das Asas de Fogo do reino de Erberos. Era um lamentar sombrio, triste, constante, como um ruído daquilo que já foi um dia.

Fender se aproximou de Heredes, que a frente do grande exército perdia sua vista no horizonte:

_ Você também escuta, capitão?

Heredes fez que sim com a cabeça.

_ Nem todos escutam os lamentos, Capitão. Parece que só parte do exército consegue ouvi-los. Os que escutam, tentam tampar seus ouvidos. Os que não escutam, apenas sentem medo.

Heredes pegou seu cachimbo.

_ Minhas tropas clamam pelo auguro de Erberos, capitão. Querem ouvi-lo antes da batalha, pedir seus conselhos.

_ Diga aos seus homens que nesta batalha não haverá estrelas para serem lidas pelos seus deuses.

O subalterno acenou com a cabeça.

– Fender, diga a seus homens que não há ruosischs. Nunca houve, amigo. Quando vê-los, você entenderá que não vai lutar contra um ser. Deuses podem ajudar um homem bom contra um homem ruim. Deuses podem ajudar um exército virtuoso, que clama por seu nome. Agora, o que pode um deus fazer contra o que nós mesmos criamos? Iremos lutar contra monumentos das barbáries. Ruosischs são os acúmulos das dores de nossos tempos.

_ E por que não os escuto?

_ Nem todos são responsáveis pelas atrocidades deste tempo, Fender.

Heredes soltou a fumaça do cachimbo, curtindo o sabor doce escapando pelas narinas. Fender tentava perceber quantas horas faltariam para o escurecer do dia:

_ Você os escuta, capitão?

_ Todos os dias, todas as horas, a cada minuto desde que peguei a minha primeira espada.

Heredes olhou no rosto do líder da ala norte:

_ Destrua a ponte, Fender. Ninguém mais pode voltar pelo rio. Hora de encontrarmos com nosso passado.

*************

As gotas batiam nos elmos no campo de batalha. As enormes nuvens tinham coberto todas as estrelas, escondendo ao oeste o lento caminhar dos ruosischs. As enormes figuras apareciam entre relâmpagos. Não era possível vê-los com perfeição, mas todos conseguiam perceber sua forma fluída. Eram legiões de pernas, braços, troncos, mãos e cabeças de antigos guerreiros que se interligavam pelas larvas que roíam os corpos.

E eles andavam, como seres moribundos, arrastando e se batendo pelo chão, com três ou quatro conjuntos de pernas. Na parte superior, rostos antigos de humanos lamentavam a sua existência. Eram uníssonos, mas não era como se fosse uma música. Não tinha ritmo, não era sequer entendível. Era só a fluência de uma língua perdida, não mais falada, mas muito ouvida no reino de Erberos.

Heredes saiu da enorme parede de escudo, que se recompôs atrás dele. De nada ela seguraria aquelas estranhas figuras. Girou seu escudo no ar, tentando tampar a chuva, que agora engrossava, enquanto girava um mangual de ferro de alguns quilos, dependurado pelas correntes amarradas em seu pulso direito. Caminhou lentamente em direção aos ruosischs, até que as lamúrias se tornaram altas demais para ouvir os sons dos trovões.

Fender, a quem agora todos comandava na ausência do capitão, ficou inerte, olhando o guerreiro se aproximar das montanhas disformes.

Heredes correu e saltou no ar, conseguindo impulso enquanto alavancava seu corpo em um torque absurdo para o mangual de ferro. Ela se deslocou retilineamente, até chocar em um dos rostos. Todos gritaram, enquanto o ruosisch refazia seu curso em direção ao capitão, que se afastava, preparando um outro golpe.

Mais uma vez, girando com força sobre a cabeça o grande mangual, Heredes a atirou, desta vez acertando uma das muitas pernas que o compunha. A perna atingida, com os ossos remoídos, fora repelida, caindo ao chão sem que qualquer gota de sangue manchasse o local.

O guerreiro recompôs sua arma, puxando-a pela corrente e circulando no campo de batalha. Procurava um novo ângulo. Mais um golpe, na região onde braços se localizavam. Todavia, dessa vez o mangual fora seguro pelas mãos.

Com a perna cravada ao chão, Heredes a puxou com força, a escutando o estalar de dedos se quebrando enquanto ela deslizava. A manobra fizera recuperar o armamento, mas estava perto de mais do ruosisch, que finalmente pode lhe atacar.

Um dos monstruosos braços, compostos por outros braços, lhe acertou o escudo, que em vão ele segurou para evitar o impacto. Não fora rápido, mas potente o suficiente para atirá-lo para trás.

Seu corpo ao chão, forçando seu cotovelo contra uma pedra pontiaguda antes que parasse. Ele se levantou com dificuldade, não foi um impacto grande, certamente, conseguiria receber outros de igual magnitude antes de perder a consciência, no entanto ele sabia que ruosischs não matam pela capacidade de guerreiros no campo de batalha.

O capitão olhou para seu escudo, percebendo que as larvas tinham o infestado. Atirou a proteção de ferro longe, enquanto tentava se locomover, evitando um outro impacto.

Sentira então uma dor entre os dedos da mão esquerda, tendo visto uma das larvas adentrando abaixo da unha. A dor fora tão intensa que o fez gritar. Ainda correndo, ganhando espaço, lutou para puxá-la, mas neste instante sentiu uma fincada próximo ao cotovelo, que sangrava com a queda. Outra larva se espremia, lutando para adentrar em seu corpo.

O capitão iria usar o mangual para golpear o próprio braço, numa tentativa de conter o avanço das larvas, mas percebeu que perdia o movimento da mão direita. Ele a olhou, assustado com a quantidade de larva que saia na junção de seu pulso, roendo sua carne.

Os gritos se juntaram ao sangue massivo em suas juntas. Tentou correr desesperado, até que sua perna foi se dobrando com a dor. Seus movimentos se iam. Lutava para mexer seu tronco, mas perdia lentamente toda capacidade motora.

Olhou para seu exército ao longe, pensando em pedir ajuda, mas nada conseguiu dizer. Nem sequer gritar. De sua boca, saíra apenas lamurias de uma língua perdida, que sequer entendia.

Antes que sua vista fosse completamente encoberta pelos seres que corroíam seus olhos, pode perceber que um dos rostos que compunham o grande ruosischs era do auguro de Erberos.