DERROCADA DE ERBEROS – parte 3

De impulso, o olho se abriu assustado. Esforçou-se para se mover, não conseguiu, a dor era maior. Escorou o braço na lateral da maca, querendo se dobrar sentado, mas lhe faltava algo. Seus olhos ficaram atônitos. Desesperados com a inércia do resto do corpo, escaneavam até o limite onde o movimento simples da cabeça podia os levar. Entretanto, só via enormes panos dependurados alguns metros sobre sua cabeça.

Escutou um mover próximo, tentou encontrar sua espada, em vão.

_ Senhor Fender?

Ele percebeu uma menina, recém saída da infância, adentrando em seu campo de visão. Com faixas de panos brancas amarradas pelo seu corpo, até a altura dos cabelos, percebeu o líder da ala norte das Asas de Fogo que se tratava de uma curandeira de Erberos.

_ Coloque-me de pé, senhorita.

_ Não posso, senhor. Você ainda está recuperando.

Fender escorou mais uma vez seu braço no canto da maca. A senhorita percebeu seu esforço e, receosa, com o corpo debruçado sobre o dele, puxou seu tronco, ajudando-o a se sentar na cama improvisada de pano branco, levantada em oito troncos.

O guerreiro percebeu que estava em uma tenda de aproximadamente 12 metros por 30. Ela era toda coberta por panos, cerca de 2 metros de altura, escorado em mastros centrais, estando o chão infestado por soldados e seus restos. Entre eles, diversas curandeiras de Erberos, correndo para ouvir os gemidos abafados do horror de ter sobrevivido.

_ Quantas tendas como esta restaram, senhorita?

_ Só esta.

Ele vislumbrou para os demais guerreiros, enquanto ela refazia uma atadura sobre o joelho.

_ Onde está meu braço?

_ Sinto muito, senhor. Nenhum dos sobreviventes voltou inteiro.

_ Cinco mil homens reduzidos a isso… Um grupo de inválidos.

_ Erberos não foi invadida. Você tem que ter orgulho de sua liderança.

Ele tentou mexer suas pernas, no entanto percebeu que simplesmente não conseguia senti-las.

_ Como estão os outros guerreiros sobreviventes, serva de Erberos?

 _ Não sabemos ao certo. Você não foi o primeiro que acordou, mas foi o primeiro que falou algo que faça sentido. A maioria está apenas em silêncio. Parece que escutam algo… Seus olhares vazios, no nada, não nos ajuda a entender o que ouvem. Alguns, os mais agitados, tentam tampar seus ouvidos e gemem dizendo coisas ininteligíveis, reclamando de algo como um choro em sua cabeça.

_ Não são choros. São lamentos.

Ele gritou abafado, sentindo o dedo dela tocar seu tronco, a procura de alguma perfuração não cuidada.

_ Eu também escuto os lamentos, curandeira. Acho que a batalha nunca vai se calar dentro de nós.

_ Entendo… O que o senhor lembrada guerra?

_ Lembro apenas de 36 noites de guerra. Sequer me lembro como tombei em campo. 36 noites sem descanso. Ruosischs são lentos, mas imparáveis. Cada perda era uma forma deles se reconstruírem. Éramos muito mais, mais numerosos. Os ruosischs não chegavam a setenta. Os atacamos como massas compressoras, com força, por vezes cortando-os ao meio com o golpe da parede de escudo. Eles não. Não tinham estratégia. Eram só constantes. Eles só continuavam, impelidos pelas ruínas que construíram enquanto olhavam às barbáries que viriam. Eram só um marchar lento e constante para cima dos exércitos. Inexoráveis, inevitáveis e impelidos por aquilo que ainda causariam…

Seu olhar se perdeu em um dos mastros, em silêncio.

_ O exército real de Eberos chegou antes da 37 noite. Isso o salvou, senhor.

_ Vocês espantaram os últimos ruosischs?

_ Não. Quando chegamos, não havia mais nenhum.

_ E os soldados, curandeira? Todos aqui estão pertos da morte. Deveria haver pelo menos um, um último que afastou finalmente os ruosischs.

_ Quando atravessávamos o rio que separa os reinos, todos vocês estavam no chão, em meio as pilhas de corpos. Apenas um soldado em pé segurava sua espada, vendo nossas lentas balsas atravessando as águas vermelhas de sangue.

_ Onde está este soldado? Queria conversar com ele.

_ Ele se matou, senhor, pouco antes de alcançarmos a margem. Jamais esquecerei o olhar dele, sereno, nos vendo aproximar, enquanto abria sua garganta com a própria espada.

 O líder da ala norte das Asas de Fogo fitou o chão, sentindo o pesar da notícia.

_ Gostaria de vela-lo, como herói de guerra, serva de Erberos.

_ Não há heróis que se matam em Erberos. Nunca houve. Você conhece as regras antigas, Fender. Sua alma está recolhida entre os medrosos.

_ Posso saber pelo menos como se chama, para juntar seu nome as minhas orações?

_ Ninguém sabe. Seu restos mortais foram cremados junto aos demais no reino sem nome.

_ A ele devemos tudo, curandeira. A ele, devemos nosso reino. A ele, ao soldado qualquer, devemos nossa existência. Um ruosisch jamais adentrou em Erberos, ou atravessou o grande rio, simplesmente por um homem, que sequer pode ser velado.

Os panos se abriram, ao fundo da grande cabana. A curandeira se pós em pé, em sinal de reverência, assim como todas as demais que estavam no local.

_ Tenho que ir. – disse ela se voltando para o grande guerreiro, deitando-o novamente em sua cama – Você será abençoado. De noite, voltarei. Vou ver como está. Você está fraco, tente dormir.

Fender escorou na maca, sentindo a dor se espalhar em cada movimento. Sua visão acompanhou um pouco a senhorita, até que ela sumisse pela lateral e, após observar por alguns instantes os panos sendo tocados pelo vento acima de sua cabeça, dormiu.

O guerreiro só acordou algumas horas depois, com um homem debruçado sobre ele. Não conseguia ver seu rosto. Percebeu apenas seu corpo magro e retorcido impondo suas mãos, como se orasse, nas feridas ainda entreabertas.

O líder da ala norte das Asas de Fogo tentou dormir novamente, enquanto o ritual continuava. Contudo, antes de repousar, sentiu uma leve fincada, como se algo submergisse em suas entranhas. Contemplou novamente para a inquietante figura debruçada e percebeu que era o auguro de Erberos.

Sua vista se embaçou um pouco, sentiu-se fraco, como se algo o consumisse por dentro. Outra fincada. Tentou olhar para o auguro, mas sua cabeça pesava. Iria desmaiar. Antes, porém, pode perceber que o auguro não orava. Ele, na verdade, lamuriava em voz baixa as dores de uma língua perdida.