DERROCADA DE ERBEROS

As gotas de sangue caiam no chão, quebrando o silêncio da noite. Eles apenas se olhavam. Quietos, mas inquietos. Era uma grande clareira entre árvores, afastada dos lamentos dos exércitos, iluminada pelas tristes estrelas. O mais velho, forte e ornamentado para guerra, sentado sobre os calcanhares, sorria a cada gota: Heredes, capitão das Asas de Fogo do reino de Erberos. O mais novo, magro, retorcido em suas enfermidades, observava o impacto de cada gota que escorria por seus punhos. Não tinha nome, não tinha vida, não tinha nada. Era um auguro de Erberos, nome dado aos antigos leitores dos deuses.

_ Tenho pouco tempo, você sabe, capitão.

_ Você é o oráculo, não eu.

_ Não precisa ser um oráculo para sentir a morte.

O mais velho sorriu.

_ Não tenho tempo para isso, oráculo.

_ Não sou um oráculo. Sou um auguro de Erberos.

_ Não acredito em seus deuses.

_ Se não acreditasse, não estaria aqui.

O capitão cuspiu em direção ao jovem.

_ Seus deuses irão te salvar, auguro?

_ Você não entende. Nunca entendeu. Não há meus deuses. Eu sou os meus deuses.

_ E deuses morrem?

O auguro passou sua mão, fechada e dura pela peste, sobre seu tronco, tentando folgar a roupa ensopada em sangue, para que pudesse respirar. As feridas ardiam, golpes pequenos cravados no tronco, que se enchia no derramar interno do fluido.

_ Você é defeituoso.– o guerreiro puxou a mão ensanguentada do auguro, que gemeu ao sentir o estalar dos ossos e cartilagens – É filho da peste antiga. Se fosse um deus, estaria com a espada ao nosso lado. Não é deus. Como pode um deus ser defeituoso?

_ Então me diga capitão, como pode um capitão liderar seu povo para a maior de suas batalhas, se ele estará morto?

Heredes chutou o rosto do auguro de Erberos com força, fazendo atingir o solo gramado. O sangue que invadia seu peito começara a sair em soluços pela boca. Ele tentou vomitar, em vão. A mão voltou ao tronco. Tentou aumentar a perfuração ao lado das costelas. Só queria respirar.

_ Lê as estrelas, deus.

_ Já li, capitão.

Heredes levantou o corpo retorcido, segurando sua cabeça em direção às estrelas. Todos os ossos rangeram:

_ Lê de novo.

O auguro olhou ao céu.

_ Nada que eu ler, fará com que seu destino se altere.

_ Dita meu futuro, auguro de Erberos!

_ O senhor já sabe.

_ Então muda meu futuro, auguro de Erberos!

Disse, jogando-o com força no chão. O vômito de sangue fora inevitável agora. Começou a se sentir tonto. O sangue massivamente escorrendo e o peito se afogando apagava lentamente sua visão. Heredes pegou seu braço esquálido e branco. A mão se fechava, enquanto o retorcia, estilhaçando parte dos ossos enfermos.

_ Muda meu futuro, deus da peste.

O auguro não lhe respondeu. A dor não mais lhe fazia sentido.

_ Muda o futuro, deus…

O jovem se virou, sugando o pouco de ar que lhe restava, olhou nos olhos do capitão e como se nada mais acometesse o corpo deformado, falou:

_ Nada que eu fizer irá segurar a marcha lenta dos ruosischs do oeste. Nada que eu falar vai fazê-los esquecer do passado de guerra. Vocês lutam pela vida, eles morreram e voltaram pelo fim de todas as vidas. Você lutou contra homens, amanhã, lutará contra aquilo que vem depois dos homens. Nada que eu ler nas estrelas vai mudar o fato de que elas são vidas sem vidas. E nada, nada, que você fizer vai impedi-los de tirar a sua vida… O seu sangue será o primeiro a cair, capitão, e nada, absolutamente nada que eu falar vai mudar isso.

O guerreiro soltou o braço e sacou sua espada, apontando em direção ao jovem:

_ Então que venham ruosischs, deus, e tentem fazer o que você nunca conseguiu fazer: tirar a minha vida.

O auguro de Erberos riu, olhando ao chão.

_ Eu fiz muito mais do que já foi feito. Eu farei mais do que já foi visto. Eu sou aquilo que tudo tem feito. Eu vou continuar mesmo depois de ti.  

Heredes puxou sua cabeça para trás, agarrando os poucos cabelos que lhe sobraram, estalando o pescoço doentio:

_ É hora de fazer então o que você ainda não havia feito.

O capitão guardou sua espada enquanto o corpo se estremecia perdendo o resto do sangue pela garganta.

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No alto da colina de Mansur, capitão Heredes tragou seu cachimbo, olhando o enorme rio que dividia os dois reinos. Ao lado do reino de Erberos, uma enorme floresta se estendia até as águas. No oeste, o reino sem nome se reduzia a um grande deserto. Os exércitos terminavam uma ponte, a qual todos os soldados atravessariam ao raiar do dia. A luta ocorreria no oeste. Heredes faria tudo que poderia para evitar que a morte chegasse em Erberos.

Fender, líder da ala norte das Asas de Fogo, aproximou-se de Heredes, que continuou baforando lentamente.

_ Capitão.

_ Fender.

Os dois permaneceram olhando o grande rio que separavam os reinos, vendo a finalização da ponte.

_ Amanhã eu morro, Fender.

Fender não expressou qualquer reação. Já tinha presenciado mortes demais para se importar com qualquer uma delas. 

_ Acho que todos nós, capitão.

Heredes tragou mais uma vez seu cachimbo.

_ Serei o primeiro a cair diante os ruosischs… – seu olhar desviou da imensidão das águas turbulentas, apreciando a lua – Espero que você seja o último a cair, Fender.

E saiu da colina.