Sandy do Egito

Olha, eu não sou muito bom com essas coisas de metas de ano novo. Não que eu não faça. 2025, por exemplo, foi um ano que teve tudo, mas quase nada foi resolvido. E só tinha planejado três coisas: ter um filho; perder 10 quilos; ler 30 livros.

Quanto a ter um filho, isso eu cumpri. Mas, assim… A maior parte foi feita pela Bárbara. A minha parte deve ter durado uns 5 minutos e olhe lá. Inclusive, Gabriel nasceu em junho, dessa forma, a única meta de 2025 que realizei, eu devo ter feito mais ou menos em setembro de 2024. E nem deve ter sido lá muito difícil. Eu me esforço, mas, considerando que a Bárbara o carregou por 9 meses, eu podia ter me preparado mais… Pelo menos ter feito um alongamento ou um polichinelo para chegar aquecido.

Em relação ao shape, eu passei longe. E eu sei, eu não posso culpar Gabriel, meu menino que nasceu em 2025, por tudo. Todavia a academia eu posso. Desde que ele nasceu, só fui 3 vezes. Não é que ele me proíba. Acho que ser pai é um pouco isso: sentir que você nunca se doou o suficiente. E, se eu tiver que sacrificar um pouco pelo Gabis, que seja minha forma física. Ele precisa de um pai presente, não um pai gostoso – contudo, talvez a Bárbara precise de um papai gostoso, então a meta de 2026 será novamente perder peso.

E a terceira meta foram os livros. Eu nem cheguei perto de 30. Nem mesmo. Muito nem. E o pior de tudo que estou me sentindo uma pessoa péssima, pois, se eu culpei Gabriel por não ter emagrecido, agora vou culpar Deus por não ter lido 30 livros.

Eu escolhi o livro errado para começar. Quando se quer ler 30 livros, você deve começar pelo Pequeno Príncipe, Almanaque da Turma da Mônica, um livro do Olavo de Carvalho… Sabe? Essas coisas para crianças.

No entanto, eu não… Eu escolhi a Bíblia para começar. E não me leve a mal, Deus! É um livro lindo de se ler, entretanto seria mais fácil se fosse uma antologia de curtas, não uma Netflix gospel.

A primeira temporada é muito boa, ver a criação do mundo é maravilhoso e um ótimo argumento para quem odeia comer frutas. Depois começam os pastores, os primeiros patriarcas (Abraão, Isaac, Jacó), que são legaizinhos também. É interessante pensar que viemos de um povo nômade, excluído – o ruim é que, se eu ganhei um argumento para abolir na minha vida frutas, perdi quaisquer desculpas para evitar caminhadas.

E aí, vem José do Egito… Homem humilde, sábio, paciente, misericordioso… Chato para caralho. Nessa hora que eu percebi que a leitura estava desandando: eu comecei a torcer para os irmãos dele conseguirem matar a Sandy do Velho Testamento. Em vão, quando menos se espera ele vai para o Egito e o povo acaba indo atrás dele.

Graças a Deus logo depois vem Moisés, certamente o pior guia de viagem da humanidade. Tem uma pequena barriga na história, mas foram 40 anos perdidos, né? É difícil preencher um plot desses. Mesmo assim, ver as forças celestes agindo na natureza e o povo se libertando do Egito, justamente onde José os levou, é gratificante.

Quando acaba Moisés, não sei se o elenco piora ou se o roteiro desanda. Vem uma espécie de Game of Thrones sem orçamento suficiente para ter dragões. A conquista da Terra Prometida vira uma espécie de Yellowstone; os juízes parecem um papo com idosos na feira às 6hs da manhã, cada um contando sua história e você só pensando: “rapaz, que velho mentiroso”; os monarcas até são interessantes, todavia logo o orçamento acaba, o diretor fica mais experimental e entram os profetas — que, sem um mínimo de contexto histórico, fica parecendo que você está tomando um esporro do doidinho que fica na praça do centro da cidade.

Bom, o Novo Testamento é bem mais gracioso. O nascimento de Jesus é lindo. A forma como ele confronta com sabedoria é inspirador. As parábolas… Ahhhh, as parábolas. Eu as lia pensando: “Isso é Deus falando comigo”. Depois eu lia os comentários bíblicos, descobria que não era nada disso e que Cristo jamais tinha me mandado tomar iogurte para evitar prisão de ventre.

Depois dos evangelhos, vem a igreja primitiva. Que livros lindos! Como, depois de Jesus, nós vamos continuar com isso? Como nós vamos espalhar o que aprendemos, mesmo que paguemos com nossas vidas? Como, afinal de contas, a gente vai entender o que o apóstolo Paulo escreveu? Esta é uma pergunta super válida, nem Pedro entendia o apóstolo: “Tenham em mente que a paciência de nosso Senhor significa salvação, como também o nosso amado irmão Paulo lhes escreveu, com a sabedoria que Deus lhe deu. Ele escreve da mesma forma em todas as suas cartas, falando nelas destes assuntos. Suas cartas contêm algumas coisas difíceis de entender (…)” (2 Pedro 3:15–16).

Se Pedro, o Criador da Igreja Católica, homem fundador da nossa fé, amigo de Jesus Cristo, não compreendia Paulo, imagina eu? Homem que torceu para os irmãos matarem José antes dele ir para o Egito.

Aí vem o Apocalipse. A Bíblia tem livros históricos, legislação, poemas românticos. Só faltava o que? Terror com spoilers (da sua vida!). Quem fala que crente não pode ver filme de terror, nunca viu Apocalipse. Dragão de Sete Cabeças, Besta, Cavaleiros, a Grande Prostituta. Esta me fascina desde que eu era adolescente: “E veio um dos sete anjos que tinham as sete taças, e falou comigo, dizendo-me: Vem, mostrar-te-ei a condenação da grande prostituta que está assentada sobre muitas águas” (Apocalipse 17:1).

Que isso? Que figura complexa. Quem é ela? Comentários mais antigos apontam que estava sendo falado de Roma. Posteriormente, identificaram como religiões corrompidas, ou até mesmo o sistema capitalista global (alguém tem que parar os esquerdocrentes).

Quando era novo, ouvi uma pregação que falava que ela seria a Carla Perez. Sim, a menina do Tchan. Sempre achei ridícula essa visão. Não que a Loira do Tchan não fosse importante suficiente para aparecer na Bíblia, mas não pode ser ela, pois ela está assentada sobre águas  no versículo – e não em uma garrafa.

Enfim, espero que tenham entendido meus motivos para odiar resoluções de fim de ano: no fundo, elas só provam minha incompetência. Em 2025, eu não perdi 10 quilos; eu não copulei suficiente para engravidar ninguém; eu não li 30 livros.

E a prostituta, Lucas? Eu não acredito que vai acabar a crônica sem explicar quem é ela.

Bem, cara voz da minha cabeça. Eu só li praticamente um livro em 2025 e eu nem sei se entendi o final dele. No entanto, tenho certeza que José do Egito saberia.

Chato pra caralho.