O que não mata, traumatiza

Há um velho ditado ribeiro nevense segundo o qual não há nada mais doloroso do que a patada de um leão, a rabada de uma baleia e o coração partido pela morena. Eu nunca tomei uma patada de um leão, mas um cachorro mordeu meu nariz certa vez. Rabada de baleia eu nunca tive nem chance, contudo, fui a um pesque e pague e nunca mais gostei de comer tilápia. Bem, e coração partido pela morena, não me leve a mal, até hoje ela está bloqueada no meu Orkut.

De fato, talvez essas sejam as maiores dores que um ser humano pode ter… Até ver seu menino doente.

Sim, eu sei, Gabriel não teve nada demais. Ele teve icterícia com uns 7 dias de vida. Assim, era perigoso, todavia, eu era pai de primeira viagem, não fazia a mínima ideia onde eu estava me metendo. Lembro que, no teste do pezinho, a médica falou que estava doente e que a corzinha amarela dele não era natural. Eu, sem nada entender, apenas respondi:

_ Então o garoto não é japonês, ufa.

Depois teve conjuntivite, ainda antes de completar um mês de vida. Eu fiquei preocupado? Fiquei. Só que a sensação de nojo era maior. Em uma semana você tem um presente divino, um anjo ronronando em seus braços com carinha de porcelana; na outra, parece que apertaram muito ele e tem amoeba saindo por todos os lugares.

Gripes também vieram muitas, principalmente quando voltamos a trabalhar e tivemos que o matricular num centro de ensino. Até me falaram que era bom ele entrar na escolinha, para ganhar anticorpos, mas não foi isso que aconteceu. Ele entrou na escolinha para inventar alguns anticorpos. Eu tenho quase certeza que os professores deixaram até morcego o Gabriel morder, porque toda semana ele pegava uma cepa nova de gripe.

Essa é a verdade. Por inocência, estupidez, por ter convivido a maior parte do meu tempo com adultos, apesar deles não parecerem, tudo parecia pequeno demais. E eu tinha sobrevivido a uma morena na adolescência! Certamente aquilo passaria, era só uma fase do Gabriel…

Bem, era isso que eu sentia, até ele ter bronquiolite.

Bronquiolite é uma das poucas coisas que pais têm medo. Isso e gatos, que foi o outro hiperfoco da Bárbara. Eu me lembro de ir a um restaurante com ela e ver que tinha um bichano lá perto. Ela olhou para mim e disse:

_ Eu entendo o Jerry.

Enfim, aos oito meses, a terrível bronquiolite chegou. Lembro-me de tirar a blusinha do Gabriel e gravar, para mandar para minhas irmãs, médicas as quais uso como mão de obra barata. Ele lutava para respirar, mexendo as costelinhas ao puxar o ar. Foi terrível ver aquilo.

Então o arrumamos e fomos ao hospital. Eu sei que a maioria dos bebês passa por isso, com certa tranquilidade, inclusive, mas o Gabriel é filho de um homem gordinho branco. Vocês sabem que nós somos o pug humano. Quando eu ligava no Fantástico, na época da pandemia, e mostravam fotos de gente que se foi naquele período, eu ficava olhando o monte de gordinhos brancos que apareciam nelas. A sensação era sempre que minha raça estava sendo extinta.

Então, sim, eu fiquei preocupado com meu garoto.

Gabriel gosta muito de brincar. Naquele dia, não. Naquele dia ele ficou muito escorado em meu ombro. Ele já tinha feito isso, por exemplo, na ocasião em que tomou vacina na perna. Mas era diferente. Na vacina, meu menino ficou brincando com a médica, até que ela aplicou a injeção que o fez gritar de dor. Então ele se virou, sem nem desconfiar que eu fazia parte do complô, e me abraçou forte, muito forte, como pedindo para que o ajudasse.

No dia da vacina, eu ri, pois sabia que era passageiro e que um dia Gabriel entenderia que fui eu que o levei para ser picado. No dia da bronquiolite, enquanto me abraçava, pois o ar entrava com dificuldade no seu peito, eu não ri. Vem tudo na cabeça de um pai ao ver seu menino mal de saúde, menos a sensação de que aquilo é passageiro.

Enquanto íamos para o hospital, fiquei pensando se de alguma forma aquilo era minha culpa. Será que não devia ter o levado no shopping, no meio da semana? Ou na escolinha? Será que não devia ter o deixado brincar no chão? Será que tinha que ter o levado antes ao hospital?

Não sei, talvez eu nunca vá ter essas respostas. No entanto, hoje, com a doença passada, fica mais fácil de entender que eu fiz essas coisas sem pensar que elas poderiam o deixar doente.

Na cabeça de um pai, a doença que pode acontecer é muito pequena perto da alegria de ver seu filho brincando no escorrega de um shopping, interagindo com amiguinhos na escola, correndo surtado atrás dos cachorros em sua casa e, sobretudo, na cabeça de um pai, é no colo – não no hospital – o lugar onde todas as doenças deveriam se resolver.