Gotas

Às vezes as coisas só caem onde não deveriam, mas naquele dia não estava chovendo.

A viatura ia muito mais tranquila do que o normal. Sem giroflex, sem sirene, o pneu colado ao solo em cada curva. Eu olhava o celular sobre minhas pernas. Percebi a primeira gota de lágrima pingar nele. A mão rápida passou pela tela, o secando. O olho não precisava. Ninguém naquele veículo tentava esconder suas dores.

Olhei para janela. Era dia e eu, calmamente, ia me apagando.

Vinte minutos antes, eu descia da Serra, uma das maiores favelas do Brasil e certamente a maior de Belo Horizonte. Não é comum que um plantonista da Delegacia de Homicídios retorne sem um corpo no chão. Não havia nenhum. Havia pessoas passando, como se a tragédia não existisse. Como se nada tivesse acontecido, pois as ruas tem que continuar, enquanto futuros corpos se apertam. E havia sangue.

Lembro de ter pulado o rastro no chão, descendo a escada que dava para o barracão. Nosso trabalho tinha acabado, íamos embora. O sangue ficaria. Como rastros de um animal que jorra antes da morte. Era sangue ralo, perdido em secreções, de uma mãe que transbordara em dor pedindo uma ambulância.

Ela nunca veio. Em alguns lugares, ambulância não sobe. Em alguns horários, ambulância não sobe.

Eram 4 da madrugada quando ela acionou. Havia perdido muito sangue. Estava no banheiro no primeiro telefonema. Sua filha mais velha, de 14 anos, lutava para acalmar seu irmão, de apenas um ano. O choro era intenso. Da mãe, da adolescente, da criança. Só esses choros ouviram naquela noite. Não o choro que a mãe queria ouvir.

E o telefone tocou na Homicídios. Era o número que ela conhecia.  

Na casa, o sangue passava pela sala e pelo banheiro. Depois de conversar com todos, em meio ao sangue, parei diante da janela, que iluminava a cidade. Dava para ver Belo Horizonte inteira, em uma sala apertada na qual a parede não tinha nenhum enfeite a não ser a própria cidade.

 A menina de 14 anos era mais lúcida do que eu esperava. Conversamos com ela depois de conversar com a mãe. Ela disse tudo que precisávamos. Uma gravidez desejada. Uma mãe saudável. O enxoval apertado na casa. Uma família feliz, até descobrir a traição do pai. O pai que foi embora. Fazia uma semana. A mãe definhou. Não tomou remédio, não tomou nada. Só definhou. Não sabia como continuaria. Não escolheu não continuar. Não continuou.

A menina contou tudo, em uma precisão da frieza de quem Deus fez forte, enquanto lavava a mamadeira.

A mãe estava no quarto, deitada em meio aos cobertores. Já era dia, mas a ambulância não subia, nem ela, ainda acordada, teve força para descer. Apenas nos chamar.  

A história era a mesma. Se tivéssemos conversado antes com a filha, talvez fosse mais fácil de entendê-la. Agora perdia o bebê, como antes perdeu o marido. Os outros dois não eram dele.

Entramos armados. Não sabíamos que ela estava na cama. Podia haver alguém. Era só ela. Deitada. A arma passou mirando por todo o quarto, antes mesmo de a cumprimentá-la. Não havia mais ninguém, quando entramos, só ela e a caixa.

Lembro de ter empurrado a tampa da caixa de sapato com o cano em punho. O abrir lento, de quem sabia o que estava lá. A toalha ensanguentada, cobrindo algo. O desenrolar, ainda com a mão quente, de quem não tem luva não tem nada, além do dever do abrir aquela pequena caixa. A visão sem choque, mas dolorosa. O retorno da tampa, enquanto escutava os balbucios da mãe:

_ Só não me leva ele. É meu filho. Eu quero enterrar.

Não era a mãe abraçando um filho.

Não era a mãe querendo que algo voltasse.

Não era a mãe percebendo que o sonho se foi.

Era uma caixa de papelão se transformando em um caixão.

A ambulância nunca subiu. O rabecão foi. A mãe foi separada. O luto não se fez, mas descíamos um pouco com ele pro DHPP.