Pá cumê!

No início, Deus criou o homem, sem se importar com gênero, x, @ ou mulher sapien (estas divisões só vieram anos depois, com o programa “Encontro com Fátima Bernardes”). E todos estavam juntos, morando no mesmo lugar. Essa era a ideia divina: o mundo em plena comunhão! Tanto que era a Pangeia, não Divigeia.

Na época, os homens nem nomes tinham: eram homens – pronto e acabou. Entretanto, foi este detalhe que atrapalhou a primeira comunhão, pois se vangloriar ou contar um caso ficou muito complicado:

_ Ou, homem, você não vai acreditar no que eu fiz.

_ Sério? Conta aí, homem.

_ Ontem eu peguei geral na festa.

_ Que maravilha. Beijou quem?

_ O homem.

_ Eu?

_ Não, outro homem.

_ Que homem?

_ Aquele, sabe? Homem… Que o pessoal chama de homem. Você sabe! O homem.

_ Sei não, homem.

_ Deixa pra lá então, homem.

Para resolver este imbróglio (e definir quem tinha pegado quem), a humanidade se juntou em um fim de semana (que, desde os tempos primitivos, era o período consagrado para se fazer bobagem) e instituiu a segunda classificação que se tem notícia na história (a primeira tinha sido pedras – verdura – comida).

A ideia de cada um ter um nome próprio pareceu muito trabalhosa – apesar de só ter 17 pessoas na Pangeia, havia dois funkeiros, o que fez com que os demais temessem a proliferação excessiva de descendentes com nomes iniciados com K, tais como Ketlen, Karol, Kleber, Karine, Karen. Após intensa discussão, surgiu a ideia de determinar subespécies: as mães (que seriam os seres mais bondosos da raça humana), os pais (que pareciam com as mães, mas viam jogo de futebol primitivo) e os filhos (que eram aqueles que tinham uma habilidade tremenda de culpar os outros por tudo de ruim que acontecesse).

E houve paz sobre a face da Terra, pois seus habitantes viram que a classificação era boa. Mesmo com as dificuldades naturais da coabitação, estes três se entendiam, afinal de contas, 3 é o número da perfeição (atrás do 7 e de 06-37-34-10-03-17).

E Deus estava feliz com isso… Mas nem só de Deus se fez o mundo. Satanás também estava lá, e foi ele que fez os tios…

Eles surgiram em uma das primeiras confraternizações de fim de ano da humanidade. Como não havia calendário, ninguém sabia muito bem quando era o fim do ano, mas sempre percebiam que estava chegando quando pessoas aleatórias começavam a ronronar a primeira ladainha da humanidade: “Hoje é um novo dia/ de um novo tempo que começou”. Assim, para calar aqueles infelizes, fazia-se uma festa, que comemorava pelo menos mais um ano sem esta música. As mães e os pais preparavam tudo, sobretudo comes e bebes, enquanto os filhos ficavam falando: “Tanto faz. Eu podia estar morto mesmo”.

Em uma destas festas de fim de ano, surgiu um novo indivíduo. Isto era comum naqueles tempos, já que Deus ainda estava povoando a Terra. Rapidamente, os pais e as mães se juntaram para definir em qual das três categorias pertenceria o novato. Entretanto, ele possuía condutas sui generis: não tinha qualquer acompanhante, mas se gabava das mulheres com que ficara; era gordo, apesar de insistir em falar da academia com os filhos mais rechonchudos; e não podia ver um pai tranquilo no meio da festa que já dizia: “É, este ano eu acho que o Atlético mineiro vai cair”.

 Não, aquele ser era especial. Ele não tinha bondade para ser mãe; até via futebol, mas não entendia o suficiente para ser pai; e não queria se matar, o que lhe afastava da categoria de filho.

E foi assim que surgiram os tios.

Após um mês, a comunhão se extinguiu.

Os pais acabaram por sugerir que a humanidade não deveria dormir toda no mesmo lugar, que seria bom que cada um morasse debaixo de sua própria árvore. Como o tio começou a aparecer na árvore dos outros no fim de semana, criaram o que posteriormente ficou conhecido como muro. Em vão! Os tios aprenderam a pulá-los. E foi assim que foram inventados os telhados.

A situação só piorou e, em uma festa de fim de ano, a maior ruptura aconteceu. Contudo, a culpa não foi exclusivamente dos tios, mas também das mães. Elas criaram uma comida deliciosa, todavia, nomearam-na como pavê. E a pior piada do mundo brotou naturalmente da boca de um tio.

Depois desse dia, os pais acharam melhor criar outros continentes – e a Pangeia se desfez.

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