A presença na poesia

Quando eu entrei na FALE – Faculdade de Letras, da UFMG, o mundo se abriu. Não que ele tivesse ficado melhor. Ele ficou diferente, entende? Estético…
Eu lembro da aula inaugural, todos em um grande auditório, as professoras na mesa principal, banner dando boas-vindas, a plateia ávida e empolgada e eu perdido, com uma camisa de time de futebol (sim, eu não gosto de futebol, mas eu achei que deveria parecer descolado no dia, então resolvi ir trajado – e não, não pareceu que eu era descolado).
E o resto da plateia? Era muito diferente de tudo que já havia visto.
Um monte de rapazes de camisa listrada do tipo “sou lenhador, mas depilo peito”; uma menina estava com algo que parecia um avental bordado por uma avó que fugiu de Woodstock com sequelas; saias longas que, incrivelmente, não tampavam nada; tamancos de madeira, pois aparentemente a borracha foi um retrocesso social; e, a preferida de todas: boinas.
Na boa, a primeira impressão que tive é que eu estava entrando no único ambiente brasileiro que havia sido colonizado pela França.
Recordo da primeira pessoa que eu conversei naquele dia. Não que nós tivéssemos afinidade, ou ele parecesse legal, nada disso. Eu só sentei perto dele, pois tinha que escolher um lugar. Ou seja, meu primeiro amigo na faculdade foi por preguiça geográfica.
E ele estava devidamente trajado: bermuda trançada, um tamanco, uma camisa social mais colorida que as amizades que faria posteriormente na faculdade e o cabelo típico de MPB.
Aquela palestra foi tudo. Foi estranha, diferente, anacrônica, belamente colorida e fascinante, mas, ao mesmo tempo, assustadora para quem escolheu a camisa do Corinthians para usar no dia.
Enfim, no meio desse tanto de gente diferente, tinha um menino que chamou a atenção. Matheus. Ele era quase um franciscano, com sua calça jeans, camisa meio social escura e cabelo penteado no gel.
Eu não sabia por que ele chamou tanta atenção, mas chamou, talvez simplesmente por destoar daquele mundo de cores e roupas precisamente escolhidas para parecer que não foram escolhidas.
Nos meses que se seguiram, continuei observando o Matheus. Queria ver como se incluiria naquele lugar. No entanto, Matheus não se incluiu.
Não que houvesse algo errado em se incluir ou não. Tive amigos maravilhosos, autênticos e muito performáticos. O Matheus não era melhor nem pior do que eles. Ele só não era. E isso chamava a atenção, pois, no meio das diferenças, quase todos os outros se tornaram iguais, mas não ele.
Ele sempre estava lá, com postura dura, como levava o resto da vida. Vestido sempre social, elegante, respeitoso com professores, humilde, bom em ouvir (mais até do que em falar). Era tão correto que era católico! Ou seja, ele não aceitava nem revoltas religiosas.
Com o passar dos anos, Matheus se tornou um bom amigo, mas eu o admiro mais do que por causa disso.
Sabe aquele amigo que contei lá no início, que fez cosplay de Caetano no primeiro dia? Então, anos depois o encontrei, na faculdade mesmo, uns quatro anos após formado. Ele estava com roupinha normal, uma blusa escura, calça jeans e um sapato de corrida. Falei que achei engraçado não o ver tão colorido. Ele me respondeu:
_ Ser estranho dá trabalho.
E rimos juntos.
Meu amigo não estava errado. A gente envelhece, muda, se adapta, cansa de escolher roupa… Normal.
Mas eu jamais imaginaria algo parecido vindo do Matheus. Ele é e, acho, continuará sendo. E isso fala muito do que é o livro que ele acabou de lançar, o “Presente Poesia”.
É um livro de poesia simples, à primeira vista, mas guarda camadas muito profundas.
Não, você não está vendo o poeta falar de uma cadeira, de um amor, de sonhos. Não, é muito mais do que isso, pois nas cenas mais comuns em que, de repente, Matheus revela algo enorme sobre a vida, o tempo, a solidão, o caos e a própria existência humana.
Acho que foi por causa disso que, quando fui falar sobre o livro do Matheus, preferi começar falando sobre o Matheus. A obra dele não é diferente do que ele é.
E ele é, acima de tudo, a profundidade que se alcança quando se vê o mundo simplesmente como você é, mesmo que para isso tenha que se recusar a se adaptar num mundo que você não concorda.