Conhece-te a ti mesmo e poderás dizer que é burro

Conhece-te a ti mesmo e poderás dizer que é burro

O estudo, a erudição, a instrução e a sapiência são as bases de tudo. Não à toa o Et Bilu, em uma entrevista verídica para a RECORD, aconselhou os telespectadores: “Busquem conhecimento”. Talvez esse conselho seja a coisa mais sábia que um extraterrestre já tenha feito à humanidade, desde aquela vez que eles destruíram a Casa Branca, em Independence Day.

O problema é que o conhecimento não se esgota. Até mesmo Sócrates já havia constatado que sabia que nada sabia. E olha que estamos falando de um homem que viveu há quase dois milênios e meio atrás! Se Sócrates, um sábio renomado na Grécia antiga, nada sabia de seu tempo, imagina a gente? Na época dele, carro de boi era invenção inovadora, “invenção inovadora” não era pleonasmo e o livro de história mais completo que existia possuía apenas duas frases: “Deus criou o mundo. Agora é nois.”.

Hoje, por outro lado, temos informações em excesso e elas partem de todos os lugares e pontos. A própria internet prova isso. Quando começou, ela era uma porta para um mundo inovador e diferente. O conhecimento na mão de qualquer um, de um jeito que nem o Et Bilu imaginaria. Poderíamos acessar o Louvre, ler livros da biblioteca do Vaticano, acessar fotografias raras da vida em países longínquos, observando a vida cultural interessantíssima de pontos do globo que até então não tínhamos acesso, como o Japão, China, Tigres Asiáticos.

Todavia, a abundância de informações, que foi o diferencial da internet, fazendo-a ímpar, foi também a doença venérea dela: daquelas que ninguém quer pegar, mas muita gente aceita o risco de ser contaminado. Em vez de acessar o Louvre, começamos a ver, com o street view, as ruas da ilha de Caras. Ao invés de ler livros do Vaticano, muitos preferiram ler teorias sobre terra plana. E, quando fomos procurar as culturas mais longínquas, acabamos encontrando o K-POP.

 

O excesso de conhecimento, Et Bilu, pode ser um fardo.

 

Não é culpa só da internet. A área acadêmica também sofre com isso. Sofre com pessoas sem limites. Algumas gostam de estudar tudo. Querem saber de ciências humanas, assim como de exatas, sociais aplicadas e saúde. Acabam fazendo vários cursos e nunca sabem quando vão parar ou no quê vão trabalhar. Academicamente, estas pessoas são conhecidas como piriguetes intelectuais. Elas querem todos e, por causa disso, pegam qualquer um. O problema é que, como já nos mostrou a humanidade (e o baile funk), piriguetes, no fim, ficam com a pior escolha possível.

Eu mesmo tenho um conhecido piriguete intelectual. Conheci-o enquanto estudava direito. Nesta época, ele já havia se formado em filosofia. Alguns anos depois, o vi na letras. Em 2018, estava estudando história. Não tenho certeza, mas acho que, se fizer mais uma ou duas faculdades, ele vai ser o único homem que formou em todo o departamento de ciências humanas da UFMG. Não sei nem o motivo dele estar fazendo isso. Como o mundo inteiro já constatou, tanto faz a área das humanas que você forme. De todo jeito, seu destino é fazer textões no Facebook ou virar integrante de algum tipo de cracolândia intelectual, onde poderá aconselhar seus amigos a buscar mais conhecimento.

Talvez esse meu conhecido tenha razão e eu não saiba. Vai que ele possui algum tipo de informação que eu não tenho. Vai que, por exemplo, haja um curso especial para quem conseguir formar em todos os cursos de ciências humanas. Como se, zerando as humanidades, acabe chegando a uma faculdade que só os sábios podem acessar. Como “Filosofia das letras sociológicas marciais”! Tipo uma fase bônus. Espero que o professor das disciplinas seja o Mario Bros. e que, durante as aulas, os alunos fiquem tentando pegar moedas de sabedoria jogadas na sala.

Acho que, quando meu amigo concluir este curso, ele finalmente poderá olhar na cara do Et Bilu e dizer aquilo que toda a humanidade sempre quis dizer, desde a época do Sócrates: “Et Bilu, busque conhecimento você”.