Não adianta inisistir

Não adianta insistir!

Não adianta insistir, jovens masculinos de meia idade! Estamos no século XXI e não há como voltar atrás!

Claro, ficamos mal acostumados: fomos criados para nos dar bem, ter dinheiro, viver altas aventuras e, ao voltar à casa, ter uma esposa que abre mão de tudo para ficar atrás de nós, se procriando, como coelho, e deixando a residência sempre arrumada. Mas isso não existe mais! Ou melhor, talvez nunca tenha existido. Nós fomos enganados.

E sabemos qual é a fonte de nosso erro: Hollywood. Sim, a indústria do cinema do Tio San nos criara mal. E não é difícil chegar a esta conclusão! Basta pensar em qualquer das comédias românticas que passavam na Sessão da Tarde, quando éramos adolescentes encalhados, em plena formação moral e intelectual (formação esta que nunca se concretizou).

Em regra, estes filmes não tinham mulheres de verdade! Geralmente, era uma bonitona (ou seja, uma mulher de 30 anos, com atributos físicos protuberantes no peitoral, que fazia papel de adolescente), pela qual o protagonista se apaixonava, ou, em outras películas, eram duas garotas, sendo uma feia e zureta (provavelmente a Hilary Duff) que disputava com uma lindona (aquela mulher de 30 anos loira que eu falei) o amor de um cara abobalhado, simpático e meio desligado da vida (uma espécie de aluno de filosofia, nerd, que toma Whey Protein e banho).

Nos dois casos, as mulheres nem estavam muito lá: elas existiam para rodear a história do homem, ou sendo o alvo da paquera ou sendo uma das loucas desesperadas pra desencalhar. Comumente, nem havia outras, ou, se havia, eram incrivelmente dispensáveis: sem nomes, com apenas uma ou duas falas e, a grande maioria das vezes, só apareciam com o/a protagonista para falar de paqueras ou da vida amorosa (como se tivessem vindo ao mundo para casar, e só!).

E nem adianta falar que era a vontade delas! Elas não sonhavam em ser do lar (vulgo dona de casa), ou abrir mão de algo para cuidar da família. Não, os filmes não tinham tempo para falar sobre suas vontades. Elas apenas não eram: não eram algo que atrapalhasse o plano dos homens. E isso bastava.

Sim, esse foi o papel que a década de 80 e 90 nos ensinou: devemos tentar pegar a mais gostosona (mesmo que ela tenha 30 anos e ainda esteja no ensino médio) e se unir com ela o mais rápido possível, pois ela deixará a casa sempre arrumada sem perder a disposição sexual típica de pessoas que fazem propaganda de cervejaria brasileira.

Todavia, parece que os ensinamentos Hollywoodianos não nos foram tão úteis assim. Ao que tudo indica, as mulheres querem ter uma existência relevante.

Na boa, é até melhor! Eu mesmo estou adorando isso. Fico bastante orgulhoso em ver a Bárbara todo dia levantando cedo, estudando, dando suas aulas na PUC, fazendo experimentos mirabolantes no doutorado para limpar o esgoto, tirando as coisas fedorentas dele, por meio das membranas ou dos bichos ou vassoura ou algo assim, já que nunca entendi o que realmente ela faz. Fico feliz que tenha uma vida plena e que não dependa das minhas coisas, das minhas aventuras, dos meus amigos ou da minha carreira.

Pelo contrário! Eu que gostaria de depender das dela! Eu custei muito, mas acho que finalmente, no auge dos meus 30 anos, achei minha vocação: ser socialite. Sabe, dar entrevista ao Amauri Júnior, andar com os cachorros na praia de Copacabana, levar meus filhos para passear (com a babá, claro), fazer bronzeamento artificial e participar de alguma edição de A Fazenda, da Record.

Entretanto, ainda não tenho condição para seguir este meu sonho. Não que eu não esteja pronto, pois acredito que já tenha todos os pré-requisitos para ser socialite (sou fútil e sei gastar dinheiro como ninguém), mas porque a Bárbara ainda não está preparada: ela não está rica o suficiente para me fazer um socialite de sucesso.

Assim, vamos levando a vida enquanto esta aspiração não se realiza.

O modelo de existência que adquiri na adolescência, também está assaz distante: Bárbara insiste em ter uma vida. E, quanto à casa arrumada, não deu para ser um casal de filme do mesmo modo. O que nos restou foi dividir as tarefas: ela faz café e eu faço o resto… E olha que eu nem tomo café…

Mas isso vai mudar, quando eu virar socialite… Ah se vai.