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Os últimos de nós

As adversidades são inevitáveis na vida. Todos temos que superá-las, seja hoje ou em um futuro próximo. E isso é o mais importante de saber: elas vão passar. Agora, que lição tirará delas, é você que decide.

Infelizmente, nos últimos dias, minha família tem passado por diversos infortúnios. Refletindo sobre eles, suas causas e consequências, finalmente chegamos à conclusão óbvia: nós não vamos ter filhos.

Claro, não é a escolha que gostaríamos, mas, diante da conjectura, achamos que será o melhor para a humanidade.

Ora, veja bem, acho que a Terra já possui Trumps em excesso, portanto, não precisa de mais um ser deslocado e desajeitado vindo da linhagem Creida. E não estou exagerando! Um dia, por exemplo, fui até a praça da Liberdade com a Bárbara. Era começo de relacionamento. Apenas caminhávamos, sem sequer darmos a mão, em um silêncio constrangedor. Ela, que sempre foi a “danadinha” da relação (o que, em um relacionamento de “crentes”, quer dizer que tinha incluído meu nome na lista de oração da vigília “Eu escolhi NÃO esperar”), resolveu, então, me dar uma empurradinha charmosa (dessas que vemos em filmes de Sessão da Tarde), para quebrar o gelo. Eu fui lá e a empurrei de volta, sorrindo. Ela resolveu responder com uma ombradinha simpática. Eu fui lá e dei uma ombrada de volta… e a joguei dentro de uma poça de água.

Claro que não era a intenção! Nem sei direito como tudo aconteceu: quando eu olhei, minha namorada já estava lá, estatelada. O que eu sei é que, enquanto levantava-a, eu ia pensando que eu teria que entrar, novamente, na comunidade “Solteiros gospels” do Orkut.

Mas não é só por minha causa que não teremos filhos. A Bárbara também teve real relevância nesta escolha. Semana passada ela resolveu cozinhar um ovo. Ora, dentre a lista das receitas extremamente imbecis da humanidade, certamente ovo cozido está entre elas, a cima de “miojo” e a baixo de “descascar banana”. A chance de dar merda é quase nula. Mas, para a Bárbara, nada é impossível: conseguiu explodir o ovo, assim que o colocou na água. Como alguém consegue errar a receita de ovo cozido? Ainda mais a ponto de criar uma espécie de bomba biológica? Nem MacGyver sabe. Do mesmo modo que ninguém sabe, até agora, um jeito de tirar os pedaços de ovos que ficaram agarrados na parede.

E, por fim, ponderamos que até o Apolo não deveria ter filhos. Há cerca de dois meses, aproveitando que estava sozinho, ele subiu sobre uma cadeira, se jogou na mesa da sala, pegou impulso e pulou no rack perto da janela (cerca de 60 cm de distância). Ou seja, se um biólogo tivesse visto, certamente acreditaria que os Lhasa Apsos evoluíram da subespécie Canis lupus familiaris para Canis parkou radicalis. E tudo isso por quê? Unicamente para pegar duas barras de chocolate, 80% cacau, que a Bárbara tinha deixado no móvel.

Quando retornamos, Apolo estava correndo em volta da mesa. Por um tempo, achamos que ele ficou tão alegre com nosso retorno que virou um furão. Entretanto, essa ideia só durou até que percebemos que ele devorou todo o chocolate.

Moral da história: Apolo ficou internado dois dias inteiros… e, quando chegou a conta, eu achei que me enganara e, em vez de tê-lo deixado no veterinário, tinha o levado no Hospital Albert Einstein.

Enfim, após muito refletir sobre estes e outros fatos, chegamos à conclusão que nossa árvore genealógica deve parar neste galho mesmo. Não nos leve a mal, mas achamos que a humanidade ficará melhor sem mais uma geração problemática de Creidinhos, sem qualquer habilidade amorosa; Barbrinhas, capazes de fazer armas de destruição em massa com qualquer objeto inanimado, e Apolinhos, que possuem problemas sérios com vício, passando por seguidas overdoses caninas.

Nós somos, enfim, os últimos de nós.