Garden (1)

12 anos

No mês de maio eu farei 12 anos de relacionamento com a Bárbara… Incrível, né? Quem diria que viveríamos tanto?

Fico chocado em saber que a Bárbara sobreviveu à adolescência. Nesta época, seu passatempo favorito era cair, não importava onde (na igreja, em casa, no trabalho). Era um estado de estrema tensão: uma vez estávamos conversando em um supermercado e, do nada, percebi que ela não me respondeu. Quando olhei, lá estava ela tombada, no meio das caixas das frutas… Eu não sei muito bem o motivo, mas, aparentemente, o centro de gravidade de minha namorada era puxado por Satanás.

Agora, apesar de ser muito criativa e inovadora nas quedas, a verdade é que a Bárbara tinha uma especialidade: o estatelamento após cabeçada nos telefones públicos da TELEMIG. Não havia nenhum orelhão que não conhecia minha namorada, nenhum! Tanto que, quando a TELEMIG quebrou, um dos motivos foram os autos gastos de manutenção que a empresa possuía, sendo que, seguramente, 70% desses custos eram destinados a reparos de orelhões do bairro Padre Eustáquio.

Eu, inclusive, tinha certeza que um dia a veria em um Plantão da Globo:

_ A professora Bárbara Ricci acabara de ser encontrada caída no bairro Padre Eustáquio. Ainda não se sabe seu estado de saúde, mas, aparentemente, ela está com um orelhão agarrado na cabeça.

Mas não era só a Bárbara que eu achei que não duraria 12 anos. Nos últimos 31 anos de minha existência, meu hobby tem sido me diagnosticar com as mais diversas doenças possíveis. Se eu, por exemplo, ficasse sabendo que havia um surto de febre, cismava que tinha febre. Se ouvisse uma reportagem sobre TPM, começava a ficar com cólica. Se visse no jornal algo sobre a gripe suína, do nada, eu começava tossir igual a um porco. Reza a lenda, inclusive, que, antes de dizer papai e mamãe, eu disse “coqueluche”.

E não estou exagerando! O fato de ter chegado aos 31 anos é apontado por algumas igrejas pentecostais de Belo Horizonte como prova da existência de Deus:

_  Irmãos, hoje veremos o testemunho do Lucas, que, apenas nos últimos 12 anos, se autodiagnosticou com 35 doenças terminais diferentes…

Teve uma época, aliás, que eu via uma série chamada ER-Plantão Médico, que passava toda quarta, dois episódios seguidos na Warner. Se você não se lembra, era uma espécie de filme de herói, mas no lugar que eles trabalhavam dava tanta merda que, em vez de parecer um hospital de Metrópoles ou de Gothan, lembrava um Posto de Saúde no Rio de Janeiro.

Em um dos episódios, Dr. Mark Greene (um personagem que eu adorava) sentiu dores na testa. Após fazer alguns exames, descobriu que estava com câncer terminal. Infelizmente, um pouco depois, ele teve um mal súbito e faleceu (inclusive, eu acho que o ator morreu também, já que nunca mais o vi, nem nas novelas da Record).

Naquele mesmo instante, eu reparei que estava com dor de cabeça. E o pior: igual a do dr. Greene! Mesmo jeito, mesmo lugar…  Foi aí que percebi que nem adiantava marcar uma consulta: provavelmente eu teria morte súbita. Não me despedi dos meus pais ou da Bárbara, pois, com o pouco tempo que tinha, só daria para ver o segundo episódio de Plantão Médico, que já estava começando.

E já se passaram 9 anos desde então… Ao que tudo indica, se eu completar 12 anos de namoro em abril, vou entrar no livro dos Records Guines, como a morte súbita menos súbita de todos os tempos.