“Nietzsche está morto’, Deus”.

“Nietzsche está morto” (DEUS, 1900)

De todas as pessoas que eu conheço, meus amigos ateus são, sem sombra de dúvidas, os maiores evangelistas, sempre prontos a explicarem suas razões. Entretanto, apesar de seus argumentos impares, não tenho fé o suficiente para ser ateu… E, dizendo a verdade, eu até acho que tenho provas para não ser ateu.

Tudo começou assim que pedi demissão de um estágio que fazia. Como estava muito triste, após pegar meu acerto, resolvi prometer que entraria na primeira igreja que eu encontrasse no caminho. Sai andando, então, do bairro Ancheita, na zona… sei lá, na zona rica de Belo Horizonte em direção à faculdade de direito, que fica… fica no meio de uma zona feia de Belo Horizonte.

Mais ou menos eu andaria uns 2km neste trajeto e a chance de não encontrar uma igreja era remota, pois Belo Horizonte é a cidade com o maior número de botecos no Brasil e a segunda em igrejas (que é o lugar que a pessoa que vai em botecos demais tem que ir). E, de fato, eu encontrei um belo templo… Eu só não contava que seria uma igreja neo-pentecostal.

O edifício era lindo, enorme! Todavia, ao mesmo tempo, assustador: localização geográfica estranha, pessoas suspeitas, pastores com cara de políticos de Brasília. O pior foi quando descobri que o culto seria uma sessão descarrego. Fiquei tão nervoso que preferi não me assentar sozinho. Então, no meio daquele monte de gente, puxei conversa com uma senhorinha que achei. Ela, assim que descobriu que era meu primeiro dia naquele lugar, me olhou sorrindo e disse:

_ É a sua primeira vez na sessão? – fiz que sim com a cabeça – Precisa preocupar não. Fica tranquilo, todo mundo que vem a primeira vez na sessão cai endemoniado.

Digamos que eu não fiquei muito tranquilo depois dessa informação.

No momento em que o culto começou, os pastores nos chamaram para passar pelo “vale dos pastores”, vulgo, ir na frente do púlpito andar por uma espécie de corredor polonês, mas, ao invés de alunos da quinta série dando pontapés, eram os pregadores de mão levantadas que davam tapas em nossas testas. Enquanto passávamos, eu ouvi orações sobre emprego, saúde, carros e, poucos metros de mim, um cara caiu no chão, possuído. Pensei até em correr, mas fiquei com medo que os diáconos achassem que eu era um “demônio em fuga” e tentassem me segurar… De tal modo, continue andando, enquanto fazia uma oração em forma de reza: “Deus, não me deixa cair endemoniado. Deus, não me deixa cair endemoniado. Deus, não me deixa cair endemoniado”.

Quando o corredor polonês acabou, preferi não voltar a meu lugar, assentando o mais longe possível da velha mensageira de Satanás. Fiquei então ao lado de uma jovem, quase da minha idade, que parecia um pouco a Aline Barros… Bem, eu achei que, só de ser alguém parecido com uma cantora evangélica famosa, o Cão ficaria longe dali. Achei errado! Assim que nos acomodamos, o pastor pediu para fecharmos os olhos e fez uma oração que, até hoje, eu recordo seu começo:

_ Para Jesus eu peço, mas para você eu ordeno: Satanás, sai, em nome de Jesus…

E, nesta hora, eu só senti a sósia da Aline Barros caindo no chão. Nem pensei em segurá-la ou virar seu rosto, no intuito de que não mordesse a língua. O único movimento que eu consegui fazer foi levantar meu pé direito, para que ela se debatesse  mais confortavelmente possível e reparasse o mínimo possível em mim. Nem orar por ela eu consegui! Afinal de contas, eu só ficava repetindo: “Deus, não me deixa cair endemoniado”.

Alguns minutos após os diáconos terem retirado aquela menina de perto de mim, a oração parou. Quando abri meus olhos, percebi, inclusive, que o culto estava um pouco mais vazio, provavelmente por causa do número de pessoas que haviam se estatelado no chão durante a última prece. Mas ainda não havia acabado! O pastor, aquele mesmo da oração, ainda estava no púlpito, esbravejando:

_ Alguém teve algum calafrio, suou frio ou teve algo no corpo enquanto eu clamava a Deus? Se tiver, levante a mão.

Eu estava todo suado e meu corpo doía como se tivessem tirado um demônio de dentro de mim com a vassoura que minha avó batia em minhas tias! Não tinha como negar que algo havia ocorrido! Como eu achei que mentir dentro de uma igreja seria um pecado muito grande (inclusive, algo que só um endemoniado faria), resolvi levantar a mão. E foi neste instante que o pregador disse:

_ Quem levantou a mão, por favor, venha a frente do púlpito, pois vamos orar para expulsar demônios.

Foi uma das caminhadas mais dolorosas da minha vida… Cada passo que dava, minha perna tremia mais a tal ponto que achei que cairia antes mesmo de chegar no púlpito. No meio do caminho, olhei novamente para a velhinha, que havia assentado do meu lado no começo do culto. Ela sorria! Sorria enquanto me olhava. Uma espécie de sorriso macabro, como se dissesse:

_ Agora você não escapa, você vai cair endemoniado.

Olhei nos fundos dos olhos ela e a única coisa que consegui falar, naquela momento, foi:

_ Deus, não me deixa cair endemoniado.

Bom, não cai, mas também não dormi nas noites seguintes.

Enfim, não foi em todo uma experiência ruim. Apesar de respeitar meus colegas ateus, depois de tudo que vi, jamais me tornarei um deles. Eles podem argumentar que eu não tenho provas materiais da existência de Deus, sendo que, de certa forma, possuem razão. No entanto, eu tenho provas da existência de Satanás… Aaah, isso eu tenho…