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Bom dia, como posso te julgar?

Na próxima encarnação, eu vou ser enciclopedista. Não desses da internet. Vou ser daqueles na folha de papel, que se escreve para nunca mais apagar (enquanto não vier uma nova edição). Não quero que nada mude. Quero aquele conhecimento absoluto, petrificado, tão velho que se torna universalmente atual.

 Sei que hoje em dia essa profissão não está muito valorizada e também não deve ter muitos empregados por aí. Pelo menos nunca vi um deles andando pela rua, com seu crachá: “Silvério Erasmo – Enciclopedista. Silvério: nome de um Papa do século VI d.C que é considerado santo em alguns países; Erasmo: deriva do grego erasmios, que significa amado; Enciclopedista: substantivo masculino e feminino, nome dado aos colaboradores da Encyclopédie (Enciclopédia) ou à pessoas aptas a elaborar verbetes explicativos”. Até encontrei uns, buscando pela internet, mas acho que um enciclopedista raiz os colocaria como exemplo no verbete de “Palpiteiros”.

Enfim, mesmo sendo um ofício cada dia mais raro, tenho certeza que conseguirei, nem que seja na próxima encarnação. Nem que para isso eu tenha que começar a mandar meus currículos ainda hoje:

_ Olha o currículo que chegou, senhor Barsa.

_ Deixa-me ver… Lucas… Não sei, você acha que ele pode ser enciclopedista, senhora Larrouse?

_ Não nessa encarnação.

Creio que é até por isso que, atualmente, gosto tanto de religião. A igreja me acalma. Nela não tem meio termo: será que a filha da Raquel nasceu? Nasceu, batizaram ela. Antônio e Vera estão morando juntos? Não, eles não casaram ainda. Francis vai morrer? Vai, deram a extrema unção. O Gugu Liberato tinha um relacionamento estável com um homem? Nunca nem vi.

Sem confusão, sem maluquice, com os começos meio e fins bem definidos por festas regadas às bebedeiras. A igreja foi planejada por um ser que não aguentava a confusão do mundo fora do templo. Todavia, o trunfo da igreja é justamente não se restringir ao templo! No fundo, a religião é a mais atuante enciclopédia pós-moderna: um grupo de pessoas aptas, dentre de seus muros, a definir o mundo fora deles.

É isso que falta às recentes enciclopédias! Saírem de seus templos, de suas bibliotecas. E eu farei! Eu as levarei novamente às praças, lugar de onde elas nunca deveriam ter saído (se é que elas já estiveram lá).

Ficarei do lado dos jogadores de xadrez, irei a festas, comerei pão de queijo na esquina, entrarei no meio da purrinha, pegarei ônibus lotados, ficarei escondido atrás das arvores, observando os namorados se deleitando:

_ Vocês estão se beijando? De dia? Ok. Só para deixar claro, se beijou de dia, vocês não estão mais ficando, vocês estão namorando.

Assim, libertarei a humanidade, pois cada um saberá o que de fato é e poderá se explorar em sua completude.

_ Entendi. Desde quando? Hunhun. Não, o senhor não tem um relacionamento aberto. Não. O senhor é corno.

Ser o que você é, ou o que deveria ser, ou o que eu noto que você deveria ser, pode melhorar sua vida, sua autoestima, sua plenitude e me deixar menos perdido. No final, não é que todos ficarão iguais! Não, serão todos diferentes dentro da igualdade que eu estipular.

_ Claro, senhor, faz todo sentido. Isso. Isso mesmo. Não, o senhor é maluco. Isso, maluco. É, esse é o nome técnico.

Serei como um profeta enciclopedista.

Cansei desse mundo que não se define por medo do peso da definição. Na próxima encarnação, a humanidade terá e saberá seu lugar.

Uma pena que minha religião não me deixa acreditar em encarnação.