The Tale of the Mistaken Twin (2)

A menina do café

Foi muito bem dito, a respeito de um certo livro alemão, que “er lasst sich nicht lesen” — ele não se deixa ler. Há certos segredos que não se deixam contar. Infelizmente, a consciência humana carrega tão pesado fardo de maldade que só com Cristo consegue desembaraçar-se dele. Não sabemos como se faz uma mente criminosa. Melhor assim, pois talvez não conseguíssemos suportá-la. O bagulho é louco.

O que nos resta é tentar nos proteger. Eu sei bem disso, já que, de todas as pessoas do mundo que poderiam ser minha irmã, Deus me deu uma que é caloteira.

A Gabriela não consegue fazer um evento sem nos enganar. No começo, ela apenas aplicava o golpe da carteira:  chamava para comer, mas, na padaria, via que esqueceu o dinheiro em casa. Quando o truque começou a ficar manjado, diversificou sua atuação de forma tão cabulosa que não podemos prever seus movimentos.

E ela faz de tudo para disfarçar. No começo eu achei que não havia maldade no seu coração. Um dia, por exemplo, chamou a Raquel e eu para almoçarmos na casa do papai. Ao chegarmos, fomos informados que ele não estava, pois fora a um médico. Foi só aí que a Gabi nos disse que não avisara ao papai que iríamos comer com ele. Como atravessamos a cidade no intuito de filar uma boia, ela sugeriu que fôssemos para a residência da minha avó. Contudo, a vovó também não estava. Tinha ido ao médico. Com meu pai.

Quando isso aconteceu, eu comecei até achar que minha irmã era meio doida mesmo, por isso às vezes fazia essas coisas sem noção. Entretanto, percebi a genialidade da criminosa, uma vez que os piores delinquentes são aqueles que mais disfarçam seu intento delitivo. Acredito que ela fez isso de propósito. Acho que sabia que o papai e a vovó haviam saído juntos! Apenas queria disfarçar, fingindo ser péssima em marcar eventos.

Hoje, tenho certeza que a Gabi é uma médica que, nas horas vagas, aproveita oportunidades para dar calotes.  E não pense que eu estou exagerando! Houve médicos terríveis na história da humanidade, quase todos especializados em homicídios! A Gabriela é só mais uma, só que, em vez de praticar crimes contra a vida, sua especialidade é crimes contra o lanche.

Agora, de todos seus atos, talvez o mais genial tenha ocorrido há algumas semanas:

Minha família tem um grupo no whatsapp que chama “Todo mundo até o Lucas”. Nele, ela convidou-nos para um café em sua casa. Raquel e eu aceitamos. Gabi, neste instante, mandou-me uma mensagem privada no whatsapp:

“Lucas, você pode trazer pão e manteiga? Acabei de ver que eu não tenho aqui.”

Sai de casa, passei na padaria e adquiri os trem (além de um queijo, pois sou mineiro e sempre aproveitamos as oportunidades de comprar queijo). Na residência da Gabi, assentamos e começamos a bater papo, antes da Raquel chegar. Entretanto, como esta estava demorando, sugeri que fôssemos fazendo o lanche, já que estava com fome.

Foi aí que minha irmã me informou que não tinha café. A Gabi também mandara uma mensagem privada para a Raquel, pedindo que ela trouxesse pó e leite pro lanche.

No fundo, a Gabriela só contribuiria com a água e as cadeiras, o resto todo nós tínhamos levado.

Assim são os profundos gênios do crime. Gabi utiliza o lanche para concluir seus intentos. Ela é a mulher do café. O pior coração do mundo é um livro mais repulsivo do que o programa “Bem Estar”. E talvez seja apenas uma das grandes misericórdias de Deus não podermos entender esse coração da maldade. Por que uma médica aplicaria sucessivos golpes em sua família, justamente na hora mais sagrada do nosso dia (a hora de comer)? “Sie lasst sich nicht lesen, sie ist verrückt”.

E lembrem-se: o mal não tem limite! Se você for convidado pela Gabi para comer, não aceite. Muito provavelmente ela está precisando fazer compras para casa dela.