Adeus, (1)

Carinha de anjo

Após dois anos, retirei meu aparelho dental. E eis que arranquei o ultimo pé da minha juventude.

Quando eu entrei na Polícia, era um delegado muito jovem, até para os padrões da Globo News, que  escala uns jornalistas tão novos que, daqui a pouco, vão começar a cobrir eleição de representante de turma. E eu paguei o preço por ser imaturo.

Para se ter uma ideia, na primeira Unidade Policial que trabalhei, era dezessete anos mais moço que o investigador mais jovem (ou menos velho). Eu poderia ser seu filho! Isso, claro, se ele não tivesse visto aquelas palestras de educação sexual em sala de aula.

E várias vezes fora jogado na minha cara que era novo para o cargo. Por exemplo, uma senhora entrou gritando na Delegacia:

_ Quero falar com o Delegado de Polícia agora!

_ Pois não, senhora, sou eu.

_ Não, você não! Você é o estagiário!

Fiquei em choque: não sabia se reclamava das suas deselegantes palavras ou a pedia em casamento pelo elogio à lá pedreiro. Quando era adolescente, por muito menos me apaixonava.

Passei um ano na polícia tentando envelhecer. Não foi fácil. Larguei a academia; comecei a dormir mal, por causa dos plantões; virei um ranzinza e, de vez em quando, tinha uma dor no meu joelho direito.

O plano ia bem, até que tive que ir ao dentista. Meu dente siso começou a crescer. Isso mesmo, só tive dente siso depois de ser Delegado de Polícia. Claro que não contei isto para ninguém! Já acreditavam que eu era muito novo, imagine se eles descobrissem que eu ainda tinha todos os dentes. Provavelmente espalhariam que eu estava no elenco da novela “Carinha de Anjo”.

No dentista, ela arrancou o dente, mas, assim como o Sílvio Santos com seus entrevistados, aproveitara para falar mal de mim.

_ Olha, você tem uma mordida de grau 3, tem um lado oclusivo, mordida lateral, seu queixo é de saída…

Enfim, paguei R$100,00 para que ela retirasse os últimos resquícios da minha puberdade e, ao mesmo tempo, de brinde, destruísse minha autoestima.

Durante uma semana, em casa, quando me olhava no espelho, pensava apenas como eu tinha uma mordida de grau 3, um lado oclusivo, mordida lateral, queixo de saída… Não sabia ao certo o que ela queria dizer com estas classificações, mas minha cabeça decodificou aquilo de forma muito clara:

_ Fi, você é todo torto, cara. Está parecendo um fugitivo de um quadro do Picasso.

Não consegui, voltei à dentista e coloquei o aparelho.

E foi assim que todos meus esforços para envelhecer se perderam: com o aparelho na boca, rejuvenesci instantaneamente cinco anos. O delegado “estagiário” virou, do nada, um delegado “jovem-aprendiz-técnico-carta branca”…

Fiquei sem falar no serviço por quase uma semana, para ver se passava despercebido. Em vão. A zoação foi grande, mas, de certa forma, me senti bem: eu agora, de fato, tinha idade para ser o filho de qualquer um deles.

E acho que meu corpo percebeu isso. Como cheguei à conclusão que poderia me passar por uma pessoa mais jovem, automaticamente comecei a frequentar lugares mais despojados, como pubs, em vez de restaurantes; voltei à academia e comecei a jogar MAGIC, dando um tempo no xadrez.

Bem, hoje, ao tirar o aparelho, me olhei no espelho novamente. Não me sinto assim mais tão torto, nem tão novo. Pra dizer a verdade, acredito que dificilmente passaria por um estagiário. Parece não me restar outro caminho: melhor será retornar à programação para minha faixa etária, em restaurantes cheios de pessoas sedentárias que jogam xadrez (quiçá damas!). E acho que meu corpo também sentiu. Tirei meu aparelho há menos de duas horas e meu joelho já voltou a doer.

E acho que está crescendo cabelo nas minhas costas…