Os Zagueiros do Zodíaco (1)

Os Zagueiros do Zodíaco

Eu não acredito no Zodíaco. Confesso que até acreditava, mas parei quando os Cavaleiros de Bronze invadiram o Santuário. Depois disso, comecei a refletir até quando o fato de nascermos em dado dia influencia nossa vida. Ainda mais que o Cavaleiro do meu zodíaco era bem estranho.

 Não é que seja uma crença ridícula. Não! É bonita e até bastante poética: acreditar que o cosmos influencia diretamente em quem você é. Mas não é a minha crença. Eu prefiro acreditar que o cosmos está pouco se lixando conosco. Além disso, não me parece muito lógico só haver doze tipos de pessoas no mundo e que elas terão a mesma sorte naquele dia. Bom, pelo menos eu nunca li no jornal algo como:

“Gêmeos: A Lua entra em Capricórnio e recebe um tenso aspecto de Marte indicando emoções confusas. Você pode estar mais emotivo e ter problemas no trabalho. Mas não se preocupe com uma possível demissão! Você irá morrer antes do da reunião com seu chefe.”

E, com isso, 1/12 da população se extinguiria.

Eu, particularmente, prefiro classificar as pessoas de acordo com as posições em que jogam. E, por acaso, também são doze.

 Um desses tipos é o goleiro (ou, em latim, pois toda teoria fica mais chique em latim, frangueirum). É aquele tipo de pessoa que nasce com aptidão para ser desajeitada, meio deslocada e que não sabe brincar direito (por isso o deixamos usar a mão). Geralmente, no trabalho, adora ficar morcegando, enquanto finge que é realmente importante ao grupo. E o grupo sabe que ele está lá, mas também sabe que, quando precisar dele, uma hora ele vai falhar. Por isso, nunca dependa de um goleiro.

 Tem também o zagueiro direito (zaguerum direitis), em regra o fortinho deslocado que, por não ter habilidade, fica lá no fundo, destruindo as tentativas dos outros de serem felizes. São cheios de sarcasmos, ironias e possuem ampla aptidão para partir pra agressão quando percebem que serão vencidos. Fingem que não estão ligando para nada, só porque não sabem fazer ou têm preguiça defazer. E, se realmente fazem algo, nos fazem acreditar que foram incríveis. No fundo, só fizeram sua obrigação.

 Existe, claro, o zagueiro esquerdo, geralmente canhoto e,como qualquer canhoto, mais talentoso. Em latim, seriam chamados de zaguerum du capetis, pois são iguais aos zagueiros  direitos, mas com alguma forma demoníaca de ser (já que todos sabemos que os canhotos só são mais talentosos por causa de seus nem tão “velados” pactos).

 O lateral direito (em latim, lateralis direitis) é uma pessoa rápida, esforçada e que quase é talentosa. Geralmente não são fortes o suficiente para ter uma função própria (como ser zagueiro), nem talento para serem médios ofensivos. Então, tentam ser os dois, sem conseguir ser nenhum dos dois. E geralmente são péssimos namorados! Vivem fazendo diversas “declarações”, usando baranguíssimos hashtags (“#amor_eterno” e “#é_muito_amor_envolvido)” e fazendo páginas conjuntas pro facebook (JorgeeSimoneS2 ou MarcosdaAdriana). Por causa disso, os laterais não são aptos a se reproduzir, a não ser que encontrem outros laterais disponíveis.

O lateral esquerdo (lateralis demoniaks) é igual o lateral direito, mas tem costume de vender sua alma ao Sete-Peles.

 

O primeiro volante (em latim, brucuturis), por sua vez, são quase zagueiros, ao mesmo tempo em que são quase um meia. No fim, são iguais a ter olho azul e ser feio: um desperdício. Entretanto, os brucuturis ainda são muito prestigiados no Brasil, principalmente para o Celso Roth e, também, para coordenar empresas estatais.

 Aqueles que nasceram segundo volante (quase brucuturis) são auxiliares do primeiro volante na marcação, mas tem uma aptidão um pouco maior para criar as jogadas de ataque, organizar o meio-de-campo e distribuir os passes. Não são especialmente talentosos, mas, também, não comprometem.  Amorosamente, são namorados satisfatórios (esforçados, por saberem da sua limitação). Claro, não são o Rodrigo Hilbert,que é bonito, alto, forte, rico, cozinha bem e tem programa de televisão (aquele maldito!), mas não chegam a ter problemas com a Lei Maria da Penha. 

 Depois deles, aparecem os meio campistas. São os talentosos, sempre bem posicionados, que tem visão de futuro (sabem onde os outros irão), dão melhores passes, preparam tudo e são os centros das atenções. Eu odeio os meias (que tem, como um de seus notórios expoentes, o Rodrigo Hilbert). E, ao que tudo indica, os técnicos brasileiros também os odeiam, preferindo colocar segundos volantes como meias (ou será que os meias brasileiros nasceram segundo volantes? Talvez isso seja uma questão de gênero futebolístico).

 Há o meio campista da direita e o meio campista da esquerda. Os dois são talentosos, mas o último, por ser canhoto, deve ter queimado muitas bonecas da Xuxa em cima de sepulturas no cemitério do Bonfim.

 Bem, não podemos esquecer os atacantes. Eles são, principalmente, marrentos. É simples reconhecer um bom atacante, pois ele nunca consegue utilizar todos os pronomes pessoais: só usam o “eu” (“eu marquei”, “eu fiz”, “eu arrumei”, “eu fui fondo”). A coletividade serve apenas para admirá-los. Notadamente, não dão certo com meio campistas (não há espaço para dois centros em uma equipe).

Contudo, todo time deve ter um atacante para vencer! Eles são importantes. Ficam por aí, fazendo bobagem, mas, na hora de decidir (seja fazendo gols ou fechando um contrato de licitação), são essenciais. E nós pagamos o preço pelos seus talentos, que, em regra, é a mulherada, os excessos de cerveja,os constantes atrasos e as delações premiadas.

Não menos importante, há ainda o gandula (buscantis abola). Pensando bem, ele é menos importante sim. São os caras que ninguém lembra que existem, se tudo vai bem. Entretanto, no instante que falta algo, a culpa recai automaticamente sobre ele. Sua principal função é ser o braço direito do técnico, que pede para atrasar a reposição de bola quando seu time está ganhando (e todo mundo fica nervoso ao vê-lo cumprir esta missão). O sonho de todo gandula é um dia ser o Rodrigo Hilbert…

Por último, há a décima segunda espécie de ser humano, que seria o técnico (em latim, coach).Bem, esses são comuns em nossos locais de trabalho: possuem cargos relevantes,  ganham os maiores salários e coordenam todos (apesar de nunca saberem o que os outros realmente fazem). São eles que levam as glórias por tudo e são valorizados em excesso (mesmo sem ninguém saber o motivo)… Bem, e sua genitora, na maioria das vezes, teve uma vida de trabalho, no mínimo, agitada.

 

(Texto publicado em agosto de 2015, com adaptações do Matheus da Engenharia Mecânica)