EM ESTIBORDO – parte um

Sua primeira lembrança, também a última, era das paredes brancas encharcadas de livros. Eles não eram posicionados estruturalmente, em estantes ou prateleiras, como em qualquer biblioteca que se prese. Eram apenas livros, confusos, deixados. A maioria ficava em pilhas, como se alguém tivesse racionalizado o seu estar. Mas não tinha ninguém. Qualquer organização era obra do acaso, como se as páginas se esforçassem para se agrupar.

Ali, só havia ele – e, para ele, só tinham as pilhas, que se formavam sem sentido, em frente às paredes brancas.

Quando era novo, ficava apenas confinado numa parte daquela imensidão. No Estibordo, como ele começou a chamar um canto da biblioteca, assim que acabou de ler Moby Dick, uma versão adaptada, desenhada para criança. Eram livros mais fáceis, pequenos, bonitos, alguns coloridos e outros que até se podia rasgar.

Ficou ali por anos, até que aquele mundo deixou de ser suficiente. Começou a andar por outras partes, corredores, escadas e galerias, tolhadas de livros. Caminhava entre seus únicos conhecidos, sentava e pegava alguns, antes que a luz se apagasse – momento o qual começou a chamar de noite, desde que leu “Obsessão”, de Baudelaire. Noite era o apagar das luzes e, neste instante, ele tinha já que estar em Estibordo, onde se juntava aos livros, quieto, para dormir.

Quando definiu a noite, também definiu que era perigosa e terrível, assustadora, e que ela devia temer. Era na noite que os livros não podiam ser livros, eram apenas pilhas, e, na escuridão, só lhe restava o silêncio das histórias que seriam contadas, sozinhas, em sua cabeça. A noite era o nada, e o nada o fazia ver dentro de si.

Certa vez, leu um livro religioso, em um dos corredores, que nunca mais achou. Falava sobre reza, oração, se aproximar de Deus. Não ligou muito e o deixou de lado, sem se importar. Numa noite, enquanto escutou uma pilha de livros desabando, em algum corredor perto do Estibordo, o que era comum quando os livros se mexiam, sentiu vontade de rezar.

Na manhã seguinte procurou pelo livro de reza. Nunca mais o achou. A pilha tinha se mexido e o livro nunca mais voltou. Ao entardecer, antes da luz se esvair, desesperado, com medo do que aconteceria se não conseguisse rezar, procurou o único livro que lembrava que clamava para Deus:

Senhor Deus dos desgraçados!

Dizei-me vós, Senhor Deus!

Se é loucura… se é verdade

Tanto horror perante os céus?!

Ó mar, por que não apagas

Co’a esponja de tuas vagas

De teu manto este borrão?…

E ao entardecer rezava, se recolhendo em Estibordo, antes da vinda das trevas noturna. E aí dormia. Sem histórias, lidas ou contadas, apenas dormia. Raramente se levantava à noite. Algumas vezes, as pilhas mexiam, os livros mudavam, as folhas caiam. Sempre era de noite. Nesses dias, ficava quieto e rezava novamente, esperando que nenhuma pilha caísse sobre ele. As pilhas de Estibordo não mudavam. Nunca mudavam. Mudavam pilhas que ele conhecia, mas que não estavam do seu lado.

Todo dia, ao levantar, saia andando, pesquisando novas vidas inexploradas naquelas páginas tolhadas em todo lugar. Sentava em um canto, procurando o lugar mais claro, e as folheava, com calma. Se se enjoava, pegava outro, por vezes misturava histórias: Dom Quixote em Gothan; Narizinho fugindo de Aushwitz; Gilgamés em Troia. Quando percebia que a noite vinha, voltava para Estibordo, onde se deitava com os que lhe eram comuns.

Cada dia ia mais longe. E mais livros, mais longe. E mais histórias, mais livros, mais longe. E mais pilhas, mais histórias, mais livros, mais longe. E mais corredores, mais pilhas, mais livros, mais histórias, mais longe. E mais galerias, mais corredores, mais pilhas, mais livros, mais histórias, mais longe. E mais longe foi longe demais.  

Um dia, as luzes se apagaram enquanto ainda estava longe na biblioteca. Saiu correndo, perdido, clamando por seu deus. Trombou com pilhas, jogou livros no chão, tateou corredores, tropeçou em escadas, mas não conseguiu se achar. Estibordo estava perdido, no meio daquela noite, e ele estava sozinho, com sua reza. Não sabia onde estava, só sabia que não estava onde devia estar.

Naquela noite, os livros fizeram barulhos.

No outro dia, acordou em um corredor que não lhe era estranho, mas também não era familiar. Andou  até uma grande escada, feita de livros, e desceu sem solavanco, sem nem muito pensar. No andar de baixo, estava na galeria maior, que conhecia há anos. De lá, em apenas poucas horas, se chegava em Estibordo. No entanto, nunca chegou. Aquela era sua sala, seu quarto, sua vida, seu lugar, mas não havia mais livros, não havia mais nada que conhecia. De noite, Estibordo perdeu tudo. Perdeu o que lhe era familiar.

Agora, só lhe restou sentar naquela enorme sala vazia de histórias que conhecia. Esperou a noite, para que pudesse rezar.