É você?

O CÃO TE VISITARÁ ESTA NOITE

Se você acha que cachorro é só um ser não alado que come e vai ao banheiro, quero dizer que você não está sozinho. Eu mesmo acreditava nisso. Sempre que fazia a conta de tudo que já gastei com o Apolo, meu cão, eu pensava: “Mano, que desperdício de ração. Com menos investimentos, os jamaicanos fariam um novo Usain Bolt.”

O Apolo teve tudo do bom e do melhor, contudo, até agora, só acumula desperdícios. Corta o cabelo num pet shopping por R$35,00; eu corto por R$10,00 (e ainda ganho um pedaço de abacaxi). O banho neste pet shopping custa R$15,00; eu tomo banho com o chuveiro na posição verão, no intuito de economizar energia. 3kg de ração custam por volta de R$49,50, enquanto 3kg de farinha está R$8,00. Com 3kg de ração, ele vive uns 15 dias. 3kg de farinha duram 6 meses! Isso porque nunca cozinho nada com farinha – e, depois de 6 meses, tenho que jogar ela fora. Mesmo assim, sempre que entro no supermercado, penso na hora: “Caramba, tá faltando farinha lá em casa”. No meu armário de compras tem mais farinha que na mansão de verão do Aécio Neves.

E, no final das contas, por que gasto todos esses temers? Pra ter uma bola de pelo irracional que tenta fazer sexo com minha almofada? Não é à toa que tanto cachorro quanto Lúcifer possuem apelido de “cão”. Para mim, são duas coisas que nem deveriam existir.

Essas coisas eu supunha até morar sozinho. Depois que a Bárbara, minha esposa, se mudou para acabar o doutorado, finalmente entendi para que ele serve.

Essa revelação começou quando ouvi meu apartamento estalar, no segundo dia após a viagem da Bárbara. No primeiro, afoguei minhas mágoas jogando vídeo-game, então não ouvi ruído nenhum. Na verdade, estava jogando com um som tão alto que nem conseguia ouvir minha própria consciência (e foi nesse dia que pedi uma pizza gigante de rúcula – que tinha gosto de queijo com capim).

Agora, no segundo dia, a casa começou toda a ranger. Eu estava na sala de TV e, de repente, ouvi um barulho no quarto. Depois foi para o armário da copa e, no instante que achei que tinha parado, percebi que caiam algumas gotas de água do chuveiro. Sério, parecia que havia um encosto no local, que, depois de ter cochilado na minha cama, comeu algo na dispensa e tomou um banho.

Fiquei com tanto medo que peguei o Apolo, que via TV comigo, o joguei fora da sala e fechei a porta correndo. Bem, se fosse para alguém ser pego por um ser medonho sobrenatural enviado pelo Capiroto, era melhor que fosse alguém que não paga as contas lá de casa. Alguns minutos depois, quando o chuveiro parou, abri a porta e lá estava meu pet me olhando, como se dissesse:

_ Sério? Se fizer isso de novo, vou subir na sua cama de noite e lamber meu “piupiu”.

Na terceira noite, nada aconteceu. Entretanto, na quarta, o caos voltou. Lembro que fazia muito barulho na cozinha! Foi tão assustador que preferi comer um pacote de biscoito que havia deixado na minha mochila do trabalho, só para não ter que apanhar algo na geladeira.

Nos dias que se seguiram, a mesma coisa. Barulhos e estampidos, estalos e gotas, ruídos. Parecia que as paredes faziam aula de alongamento na academia. Teve um dia, inclusive, que saí pela casa procurando o motivo de tanto barulho, com a luz do celular acesa, claro! É verdade que também ascendia as luzes dos cômodos que entrava, mas elas não bastam. Eu já vi vários filmes de terror: sei que quando estamos procurando pelo Tinhoso, a luz elétrica sempre pisca ou apaga. Contudo, eu nunca vi o Tinhoso atacando o celular. Não, celular é criptografado! Por outro lado, as companhias elétricas brasileiras são facilmente possuídas por Satanás (ainda mais em dia de jogo da Libertadores).

Neste dia, com o Apolo no colo, sai andando devagar, como se tivesse em um episódio de Chaves:

_ Satanás? É você Satanás?

E foi no meio dessa procissão exorcística que percebi que meu cachorro não estava nem aí. Ele apenas me olhava, tranquilo, como se a casa nem estivesse planejando nos matar em um ritual demoníaco que envolvesse meu estrangulamento embaixo do chuveiro, dependurado em uma corda feita por boletos de alugueis atrasados.

Encucado, entrei na internet e procurei se havia vestígios de pactos de sangue entre o Sete-Pele, os apartamentos e os animais domésticos, o que explicaria o motivo do Apolo não estar amedrontado. Mas nada! Então procurei pactos de morte entre o Sete-Pele e as residências de classe média, no entanto, também coisa nenhuma encontrei. Aparentemente, edifícios não são possuídas, apesar de todas as construções do Oscar Niemeyer ignorarem as regras da gravitação universal.

Todavia, nessa última pesquisa, encontrei os motivos da barulhada toda: aparentemente apartamentos fazem sons naturais, por dilatação pelo calor ou pela pressão da água entrando na caixa d´agua. Por isso Apolo não ligava. Ele já ouvia todos aqueles barulhos, coisa que eu não ouvia na época em que morava com a Bárbara – desculpa, amor, mas às vezes você fala muito.

E foi assim que percebi para que serve meu cachorro: ele é um termômetro de atividades paranormais em minha residência. Sempre que escuto algo, olho para ele. Se estiver de boa, fico mais tranquilo, pensando que são apenas barulhos naturais. O foda vai ser no dia que o Apolo ouvir algo e se assustar também.

Neste dia, provavelmente, eu o jogarei de novo para fora da sala e fecharei a porta bem rápido. Você me entende, né? Toda ração que investi nele tem que valer para alguma coisa.