Master Solo - 2

Master Solo

Faz três meses que a Bárbara, minha esposa, foi para a Alemanha e, confesso, fiquei chateado que minha vida nem mudou tanto assim. Eu achei que, quando estivesse sozinho, aboliria todas as opressões e amarras impostas pela vida em coletividade nos últimos milênios e viveria no caos. Acreditava que tomaria banho só se tivesse que sair no dia, que iria ao banheiro de porta aberta e que utilizaria o chuveirinho da privada para atirar em pombos que pousassem no telhado. Ou seja, que voltaria a ser pré-adolescente. Mas não fiz nada disso: descobri que tomo banho por que gosto; que, se vou ao banheiro de porta aberta, o Apolo, meu cachorro, entra para ver se ainda estou vivo, e que não dá para atirar em pombos com o chuveirinho. Eles são rápidos demais.

Talvez a coisa que mais tenha mudado seja meu hábito alimentar. A pizza que compro na segunda, eu passo comendo durante todas as refeições até quarta. É igual ir à praia nas férias: todo dia a mesma coisa (mas ainda é bom). E nem adianta comprar uma pizza menor, no intuito que ela dure menos. A verdade é que passei a comer muito lentamente. É o caso do Bic Mac. Antes, o comia em menos de um episódio de MasterChef,  e, no fim do programa, já estava desesperado: “Caramba, mano. Como eu queria comer um bife do Uellington”.

Já depois que passei a viver sozinho, o Big Mac sobrevive ao programa inteiro. E olha que estamos falando de um programa da Band! Um tempo atrás, comecei a comer um deles enquanto a Ana Paula estava fazendo a apresentação dos jurados. Antes do fim do programa, guardei as batatinhas na geladeira e fui dormir. Quando acordei no outro dia, como não tenho as amarras sociais da minha esposa, resolvi comer as batatas com ketchup enquanto via TV. E ainda estava passando o mesmo episódio do MasterChef! Atualmente, MasterChef é igual governo Temer: todo mundo sabe quando que ele começou, mas ninguém tem certeza quando ele vai acabar (só sabemos que já está durando demais).

Outra mudança que senti foi o aumento de minha carência. E estamos falando do Lucas, que já era muito carente, a ponto de curtir suas próprias publicações no Facebook e de pedir papel de embrulho, ao comprar coisas para casa, só para fingir que ganhou um presente. O fato é que, na época na qual a Bárbara morava aqui, eu arrumava o quarto e ela dizia: “Aaaah, minha Balinha de Goma, arrumou o quartinho? Ai, que lindinho você é! Você é melhor que Nutella”. Mas, sozinho, ninguém mente para mim e isso é horrível. Ao voltar do cabelereiro, por exemplo, não ouço mais nada parecido com: “Nossa, meu Topogigiozinho, está lindo! Tá igual o Fábio Assunção, naquela época que ele não era preso”.

Para se ter uma ideia, recentemente passei de uma fase em um jogo Call of Duty, do videogame. Então, apareceu escrito na tela: “Congratulations”. E eu fiquei emocionado, pois achei que finalmente alguém tinha entendido meu valor.

Também percebi que estou mais susceptível às fake-news. Eu sempre absorvi tudo que vejo na TV. Todavia, quando começava a contar à Bárbara algo que achava interessante (ou assustador), percebia que aquilo não tinha nem pé nem cabeça. Como no dia no qual comecei a contar que o Bolsonaro era líder da pesquisa eleitoral e, do nada, pensei: “Velho, o que estou falando? Isso não tem lógica nenhuma”. É como se, ao falar, eu ouvisse o tanto que meu “eu interior” é burro.

Hoje em dia, não tenho qualquer filtro para o que absorvo. Se vejo a GloboNews, por exemplo, sempre desligo a TV pensando: “Fela da égua desse Trump”. Após ver o jornal da RECORD, já saio ponderando: “Caramba, se continuar morrendo gente assim, em três ou quatro anos estaremos extintos”. E, vendo MasterChef, comumente penso: “Esta batata congelada do McDonald’s está com pouco tumpero”.

Acho que é por isso que pessoas solitárias (e mal amadas) gostam tanto de fazer textões nas redes sociais. É uma oportunidade de elas refletirem sobre o que viram ou ouviram. Contudo, no meio do caminho, antes de publicar, tenho certeza que a maioria percebe que o que escreveram é ridículo. Mas nem ligam:

_ Fod*s! Eu moro sozinho. Eu como batata do McDonald’s congelada. Para mim, não há mais qualquer amarras sociais.

E, por causa disso, elas acabam ficando cada vez mais sozinhas.

 

PS: esta é a versão censurada deste texto, pois, apesar da distância, aparentemente, eu não estou tão imune assim das opressões e amarras impostas pela vida conjugal… Uma pena, já que a parte cortada envolvia sedução com Nutella.