Luca Creido (1)

Se tiver cachorro, não ande

Quem diz confiar mais em cachorro do que em ser humano certamente nunca levou um cão para passear.

Sei que nós, seres humanos, estamos muito longe da pureza adônica, que só ocorrera no Éden e naquela ilha do filme Lagoa Azul, mas os Totós estão mais próximos do Temer do que nós.

Por exemplo, o Apolo, sempre que possível, faz questão de deixar claro seu desrespeito à religião alheia. Eu mesmo já o vi atacar frangos deixados em encruzilhadas aqui perto de casa. Não foi nada agradável tentar retirar a oferenda alheia de sua boca, enquanto gritava no meio da rua:

_ Oxi! Solta o despacho, demônio! Solta! Solta, maldito!

Não sei se alguém viu aquela lamentável cena, mas, certamente, alguém ouviu, já que depois vi duas velas de exorcismo cristão naquela mesma esquina.

Além disso, cães são extremamente covardes. Sim, covardes! Nunca tinha visto Apolo entrar em uma briga, até que um dia dois cachorros estavam dando um cacete em outro, aqui na minha rua. Quando menos esperava, ele entrou na confusão do lado dos dois, ficando três contra um. Não sei o que aquele pobre animal fez, mas, pela fúria dos três cães contra ele, acho que tinha votado na chapa da Dilma, mesmo sabendo que o Temer era o vice…

Por fim, não espere também qualquer comportamento sexualmente idôneo de um cachorro. Claro que não! Apolo parece ter nascido durante um programa do Gugu na década de noventa: toda sua vida se resume em uma grande oportunidade de sarrar.

Certa vez fomos até a pracinha do bairro. Assentei em um banco e comecei a mexer no celular, jogando uma emocionante partida de xadrez. Duas meninas, por volta dos cinco anos, se aproximaram e pediram para mexer com ele. Deixei que brincassem e voltei a meu jogo. Estava entretido com um movimento, quando ouvi uma das meninas dizendo:

_ Olha, mamãe, que bonitinho! Ele abraça a gente!

Olhei na hora para ela e vi que Apolo aproveitara do meu descuido para dar uma sarrada lendária de terceiro grau. A outra menina, que era ainda menor, fazia carinho na testa dele, enquanto sua amiga era efetivamente abraçada. E o maldito do animal sorria! Juro, sorria e olhava pra mim, como se dissesse:

_ Papai! Veja só! Estou com duas!

Arregalei os olhos, assustado. Olhei em direção à mãe, que estava boquiaberta, sem reação, olhando para sua pobre filha sendo afrontada em meio à pracinha enquanto a outra o acariciava, como que dizendo:

_ Vai, filhão! Manda brasa!

Corri para separá-los. Tive que me esforçar para tirar meu pequeno Michael Jackson daquela cena estranha. E, quando consegui, o puxei forte, saindo da pracinha. Entretanto, antes de dobrar a esquina, ainda consegui escutar a mãe falando com a filha:

_ Você nunca mais brinca com cachorros dos outros.

Por isso, meus queridos, até concordo que os homens não sejam grandes coisas, mas, se os cães fossem os humanos de hoje, estaríamos em tempos mais temerosos (ou, pelo menos, iguais).

 

Ps: todas as histórias aqui relatadas são baseadas em fatos reais. Igual naquela novela que conta a história da ditadura, mas que todo mundo que é mocinho é perfeito e os malvados todos parecem com o Jair Bolsonaro. No caso, o Apolo é o que parece o Jair Bolsonaro…