The Fourth Wind

O Lasier Martins do meu bairro

Deus salva! Quanto a isso não temos dúvidas. O problema, a meu ver, é que ele se empolga demais às vezes. Ao que tudo indica, desde que Adão teve a “brilhante” ideia de comer uma maçã (nem bacon era!), todo o gênero humano perdeu comunhão com o sagrado, estando sujeito às misérias desta vida (e, quando há Copa do Mundo com o Miranda na zaga, percebemos ainda mais estas misérias). Desde então, Deus anseia pelas almas dos fiéis na hora da morte, para aperfeiçoá-las em santidade e reestabelecer a plena comunhão com elas. Em outras palavras, eu acredito que Ele curte as pessoas boas e faz de tudo para encontrá-las (de preferência, o mais rápido possível). Aqui no Brasil temos um exemplo recente de sua vontade de união com um dos bons:

_ Senhor, tento ser um bom cristão: afetuoso, diligente, correto.

_ Eu sei, padre Adelir. – respondeu Deus – Tenho visto suas boas obras, sempre regadas de caridade.

_ Mas, Senhor, tem algo a mais que posso fazer para lhe agradar?

_ Bem… você já pensou em sair voando em alguns balões de festas?

Tenho certeza que uma pessoa de coração ruim jamais morreria como o padre do balão. Aliás, você nunca pensou como um sacerdote, um cara que, provavelmente, entendia latim, grego antigo e as cartas de Paulo, poderia ter uma ideia tão fraca? Só pode ter sido intervenção divina. 

Se ele fosse uma pessoa ruim, isto jamais teria acontecido. E sabe por quê? Deus salva, mas o Satanás protege seus enviados.

Eu mesmo já pude presenciar uma de suas peripécias. Certa vez, enquanto ainda morava com meus pais, por volta de umas duas horas da madrugada, ouvimos um barulho típico dos filmes da Marvel, como se o Thanos tivesse pego todas as Joias do Infinito e resolvesse acabar com a metade da humanidade na base da porrada mesmo. Saímos, então, para ver o que ocorrera e descobrimos que tinha acontecido mais ou menos isso mesmo.

Uma guarnição militar havia passado pela rua lá de casa alguns minutos antes, quando um rapaz, aproximadamente 18 anos, saiu correndo, fugindo deles. Do nada, sem qualquer motivo aparente! A polícia começou, então, a persegui-lo. Este garoto, fugindo desesperado, correu até em frente ao lote do conjunto habitacional que eu morava e pulou para dentro dele… e foi eletrocutado (havia uma cerca elétrica que rodeava nosso lote).

Mas não se deu por satisfeito! Cambaleante, correu até a porta de vidro do prédio e, com uma ombrada, a arrebentou. Depois, subiu até o quarto andar e, ao perceber que os militares o seguiam, pulou da janela do corredor.

Por sorte do tinhosinho, ele não caiu no chão diretamente: ele teve uma oportunidade única de pousar com as costelas sobre o muro lateral de meu prédio. Na boa, este impacto foi tão forte que eu acho que ele não morreu unicamente por ter caído em outra cerca eletrificada do prédio. Pensando melhor, ele deve ter morrido por um instante com a costelada, mas, como tomou um choque, voltou à vida antes de bater no chão com a outra parte da costela.

Os Polícias Militares, que não estavam tão dispostos a pular do prédio (já que não sabiam se o Capiroto também os ajudaria), tiveram, então, a brilhante ideia de atirar no garoto. Por sorte, o tiro apenas atingiu o fugitivo e não minha cerca elétrica, que, nesta altura do campeonato, já agonizava.

Desesperado, este púbere enviado de satanás para espalhar destruição no condomínio alheio ainda pulou (mesmo alvejado!) o muro dianteiro do terreiro, quando teve uma última oportunidade de ser eletrificado, e  caiu na rua… onde preferiu ficar caído, já que, sabiamente, concluiu que ser preso devia doer menos do que fugir.

Bom, resumindo, após dois dias, vi novamente aquele menino andando pelo bairro lá de casa. Perguntei aos vizinhos o que havia ocorrido e eles me explicaram que os militares não encontraram nada com ele e nem sequer sabiam o motivo dele estar correndo, então acabaram liberando-o. Todavia, o que me deixou mais surpreso foi que ele estava andando calmamente quando o vi. Como se nada tivesse acontecido! Como se ele não tivesse sido alvejado, se cortado em uma porta de vidro, caído do quarto andar e, por fim, como se não tivesse quebrado o recorde mundial de choques que uma pessoa pode tomar em uma mesma noite.

Alguns dias depois, veio a conta do condomínio rateando o valor dos danos causados naquela noite, para que todos pagassem (já que nenhum dos moradores teve coragem de processar aquele jovem mensageiro do caos). Assim que viu o valor, meu pai ficou com uma dor nas costas que o fez mancar por três semanas seguidas… Isso porquê  meu pai não era uma pessoa tão boa assim! Se fosse padre, tenho certeza que ele não teria resistido…